Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Vinho tinto, mais um riso - pouco siso!

Vinho tinto, um copo cheio que rola de entre os dedos. Na boca vermelha que sorve este fim de tarde maduro. Vinho tinto, vinho a copo, vinho carnudo e encorpado que provoca o rubor dos que o sorvem. Dos que o provam, saboreiam...
Vinho de risos perdidos entre goles, vinho que quebra os medos e todos os limites. Vinho que enlouquece, que aquece e que faz bem à alma. Vinho de fim da tarde, que entra pela noitinha, e que faz parar o tempo como se o amanhã não viesse nunca mais.
E é mais um copo, mais um riso - pouco siso - até que o sol nos acorde deste entorpecimento de alma que deixa o corpo dormente e quente...

...

Numa guerra sem combates, prisioneiros, dor ou guerreiros, cruzam-se sentimentos, impulsos, desejos, palavras por proferir. Energias que percorrem o corpo de encontro à alma, sem retorno, a qualquer instante. Numa guerra, cá dentro, do bem e do mal, do certo e do errado, do que tem que ser ou não pode ser, neste mundo secreto em que mergulho - mais, cada dia mais! sem jamais confessar -, o combate é grande. Sem oposição, sem luta nem hostilidade. Nesta guerra a que sei que me irei render, por fim, numa mar de sentimentos cruzados difíceis de conquistar...

Sou má pessoa.

Se alguém está doente, não sofremos por ele mas pelo medo de o perder, de nunca mais o ver ou o abraçar. Se dizemos “amo-te” é para ouvir de volta “também te amo a ti”. Se vamos trabalhar todos os dias é porque, mesmo que não precisássemos do salário, o que iríamos dizer aos outros, como iríamos assumir a preguiça e a inércia sem que nos criticassem, sem que nos pusessem à margem da sociedade, como marginais?! Se mantemos o lar limpo e arrumado é pelo que as visitas ou os que moram connosco poderão pensar da desorganização, do caos. Tudo pelo que advirá. Pela recompensa. Nada porque é o que tem que ser feito, sem medos, sem porquês. Não obstante, continuamos a desejar as melhoras, a dizer “amo-te”, a ir trabalhar todos os dias e a arrumar o lar. Continuamos a mentir a nós próprios e a fingir que somos bons seres humanos. A maioria. Depois existem os outros que confessam: sou má pessoa! Mas ninguém crê.

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Precisamos é de Viagra!

Embora usufrua da liberdade que outras conquistaram por e para mim, e à qual em tempo algum abdicaria, acredito que o actual caos social das relações afectivas em que estamos todos - uns mais que outros, mas todos – envolvidos, se deve primeiramente à desmaterialização do papel da mulher.
Acredito que homens e mulheres têm capacidades distintas. As mulheres foram feitas para pensar, sentir, coordenar e conservar, os Homens para agir, pôr em prática. As mulheres estando em casa, a organizar o lar, como meninas prendadas cujas qualidades eram essenciais, e gerindo a vida familiar e a educação dos filhos, traziam a harmonia necessária para a sociedade, cumprindo o seu papel. Aos homens, a esses, cabia-lhes a função de segurança física e financeira, da segurança familiar. Assim tudo estava equilibrado, todos estavam enquadrados na função para a qual estavam predestinados. Havia tempo... Havia enamoramento, havia estabilidade, havia sonho, havia fantasia...
Acredito também que, para além da emancipação da mulher, a culpa desta sociedade fast-tudo em que nos tornamos, é das novas tecnologias. Cinquenta anos de agora seriam cinco mil de antigamente! Tudo é rápido, fácil e descartável. A começar pela informação e a terminar nas relações humanas, nas mulheres, nos homens, nos amigos, amantes, maridos e namorados. Esperamos respostas rápidas, amor rápido, comemos rápido, sabemos rápido, fodemos rápido. Tudo. Rapidamente. E, depois, procuramos prolongar aquilo que já terminou - por ser bom. Procuramos que o que finda recomece, sem conseguirmos recuperar o que já foi.
Como vi escrito ontem numa publicidade de um medicamento: “Um, dois, três e… Pronto já está, acabou…”. Precisamos de Viagra, é o que é, Viagra para toda esta lufa-lufa em que tornamos esta sociedade, e a nós mesmos particularmente, vivendo o amanhã como se o hoje não fosse presente. Precisamos de Viagra, de regras, de mulheres-em-casa-homens-no-campo e de Homens, simples, para sermos completos.

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Vem comigo conversar enquanto o vinho se esgota!

Vem beber dois. Toda a vida
É uma coisa sem nexo
Que só se sente bebida
Quando perde o nexo e o sexo.
Vem comigo conversar
Enquanto o vinho se esgota.
Que mais nos vale este estar
A morrer-nos, gota a gota?
Tudo é absurdo. Nada obriga.
E sobre esta confusão
É ponte o fio que liga
A taberna ao coração.

Fernando Pessoa

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Parecia não precisar de ninguém.

Pelo menos, de ninguém em particular. Gostava de ter pessoas à sua volta, gostava do ruído das vozes em fundo. Precisava de ter uma mulher apaixonada por ele e também gostava que ela - apesar de se queixar disso - precisasse dele. Mas, desde que pudesse sentir-se amado, nunca era mais feliz do que quando estava sozinho com a sua caneta, papel e livros. In A história de uma vida em comum - Hazel Rowley
O pior de ler um livro muito bom é que nunca mais o vamos poder voltar a ler, com a descoberta surpreendente de quando ainda não o lemos…

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Quem não for ainda famoso aos 28 anos,

deve renunciar à glória para sempre, afirmou Sartre com 29 anos, quase 30, e nunca ninguém ouvira falar dele.

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Se não existir Deus...

...o homem não tem ao que se apegar. É livre, só e sem desculpas, dizia Sartre. Assim, Simone podia deixar-se fotografar como uma Playgirl sem culpa, livre, mesmo naquela época.
Ao reler, recentemente, "A Nausea" deparei-me com o nada que espera todos os Homens, com o "não ter ao que se apegar". Se vamos certamente morrer, a vida não tem sentido - dizia ele -, mas o problema está no momento em que se toma consciência de que a vida é desprovida de razão de ser, absurda...

A vida que se lixe!

Alguém me disse que me colava ao MEC. Que tudo o que escrevia era MEC. Que ligava demasiada importância ao MEC. Que o meu Heypokeimenon era MEC, MEC e mais MEC por todo o lado, que já enchia, saturava, agoniava. Alguém que não prestou a devida atenção ao lugar que se estende e permanece por baixo das coisas que conhecem um nasci­mento, um crescimento, uma modificação, e que, certamente, nunca leu uma linha escrita pelo MEC nesta, nem em outra “vidinha” qualquer.
Sim, vou confessar o óbvio: gosto do MEC. Bebo MEC. Se pudesse “colava-me” ao MEC – mas isso seria insultá-lo! – e não me importava de o conhecer e falar com ele horas a fio no que imagino que seria uma guerra efusiva de palavras, sem medos. Gosto do que tem lá dentro dele. Gosto da forma como brinca com as palavras, que se tornam fáceis, ditadas pelas suas mãos. Do jeito de dizer o que lhe apetece, sem ser o que lhe vai na alma, apenas o que lhe dá na gana em determinado momento. Gosto do caos interno a que sobreviveu (ou não), gosto da forma como se agarra às letras como se elas fossem findar, de repente. Gosto da força que só ele lhes sabe dar. E, por isso mesmo, e também por causa das coisas, porque não dou pessoa de me ficar, como diz o povinho, aqui vai mais um bocadinho de MEC (e ainda por cima repetido, que é para chatear ainda mais!):

“O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”

Porque quem não sente é feliz.

O Homem sem aspirações é o Homem feliz. Digo eu! Ou como disse o Pessoa:

“O mundo é de quem não sente. A condição essencial para ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela que conduz a acção. Há duas coisas que estorvam a acção: a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda acção é, por sua natureza, a projecção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por seres humanos, segue que essa projecção é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir, e esmagar os outros, conforme nosso modo de agir.
Para agir é, pois, preciso que não nos importemos com facilidade às personalidades alheias, suas dores ou alegrias. Quem simpatiza pára. O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte: ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre a qual pisa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ser humano que, não lhe podendo resistir, tanto faz que fosse homem ou pedra, pois, tal qual pedra, afasta e passa por cima.
Todo o homem de acção é essencialmente animado e optimista porque quem não sente é feliz.(…) O resto, (...) é a vaga humanidade geral, amorfa, sensível, imaginativa, e frágil. (…)

Livro do Desassossego - Fernando Pessoa

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

O Homem quer é força para acreditar em algo que o livre da incógnita!

Cada um de nós procura encontrar-se não para se conhecer, para saber quem é - como muitos professam - mas para combater o medo da incógnita, do inseguro, do incerto. O medo de não estar catalogado.
Muitos filhos tombam ao descobrirem-se adoptados. De repente tudo, o que tinham como certo, torna-se incerto e procuram aquilo a que chamam de “as suas raízes” - como se já não soubessem quem são! - e como se nelas estivessem todas as resposta para os seus medos.
Quem sou hoje pode não ser o que fui ou o que serei amanhã. Aliás, posso ser quem eu quiser, a qualquer momento, sem que tenha que passar uma vida inteira à minha procura, para nunca me encontrar. Não preciso de conhecer o passado ou tentar adivinhar o futuro para existir, tal e qual como sou. Não interessa o que mostro de mim, o que os outros acham de mim, o que eu própria acho de mim, porque o “eu”, esse, é independente e é a soma de todas essas conclusões, existindo só porque o corpo continua a respirar todos os dias. O resto, não quero saber.
Criamos falsas bengalas: Uns acreditam na vida depois da morte, em Deus e na reencarnação, outros acreditam que não há nada, que não existe nada, nem acontece nada depois deste mundo. Cada um, à sua maneira, tenta encontrar conceitos que acalmem esses medos que, soltos, consumiriam o Homem por completo.
Sempre foi assim, sempre será. Vê-mos, no que os nossos semelhantes acreditam, força para acreditar em algo que nos livre da incógnita. E, no fundo, se pensarmos bem, tudo não passa de especulações sem provas concretas. A nossa existência existe e apenas é limitada por todos os receios que insistimos em recalcar dia-a-dia, com medo até mesmo deles! Será mesmo que, como dizia o outro, "uma vida não questionada não merece ser vivida"??

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Homenagem ao meu tupperware!

Hoje aconteceram-me mesmo MUITAS coisas boas - e o dia ainda vai a meio! O que é sempre de desconfiar… Se me aconteceram TANTAS coisas boas em catadupa, ao mesmo tempo, desenfreadamente, imagino que as más se avizinhem na mesma forma. E, se aguentar emoções de tanta coisa boa não é fácil, pior deverá ser aguentar as tormentas!
O meu tupperware (ou como é mais conhecido, carro), fez ontem 100.000 quilómetros. Estava eu a vir para o trabalho, a trautear músicas quase aos gritos, quando olhei para o painel e… vi bastantes mais números que o normal! CEM MIL! Não resisti a fazer umas festinhas no volante aka focinho do tupperware e lembrei-me que neste pequeno espaço de dois anos em que tomo conta dele, já o fiz passar por muito: Pneus furados, multas, operações stop, deixá-lo na rua a dormir por não estar em estado para conduzir, fazer mudanças de casa de outros com malas até cima e outros que tais. Pior, fi-lo andar pintado de cor-de-rosa, com um desenho ridículo de uma Koala uns bons seis meses… Coitado.
Depois da efusiva descoberta, comecei a pensar… Cem mil, aquela bola tão pequenina,… Mais coisa menos coisa ainda me pára na estrada e recusa-se a andar mais. Dez anos é muito para um Smart! Agora, com esta maré de boa sorte, comecei realmente a achar que se calhar o que se avizinha não vão ser boas noticias e que ainda vou ficar apeada.
Enfim, nunca aproveitamos o momento e eu estou mais uma vez a pensar no que virá a seguir!! Mesmo que com este sorriso de felicidade, que não consigo esconder, estampado no rosto!
A ver vamos, como diz o povinho. Ainda me sai o Euromilhões na próxima semana - não que eu jogue mas se tiver que ser acredito profundamente que o bilhete vencedor virá ter comigo, não sei como, nem porquê!... - e escuso de me preocupar mais com detalhes.

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Ai quem me acode!!

Isto de beber sangria à hora do almoço e vir trabalhar tem que acabar! É inadmissível estar aqui presa no meu “metro quadrado” com tantas gargalhadas retraídas. Ainda por cima, como somos três e tornamo-nos maioria, parece-me inadequado a nossa presença no local laboral. Estamos a destabilizar os restantes membros.
Ou, como comentou alguém, ontem pela noitinha, à hora dos mágicos cansaços, sem copo de tinto, mas em frente ao meu copo meio cheio, “pois, tu gostas de pensar..”. Pois gosto. E aqui penso em quê?! Aqui fechada a ver o sol pela cortina fechada?! No que se vai usar na próxima estação?? Nas calças para a produção de moda da Vogue?? Na peças que o Paulo Vitém vai escolher ao showroom??
Ai quem me acode!! Quem telefona para cá, com voz enrolada, como em dias de exame no secundário, e faz uma ameaça de bomba de jeito? Quem?

Lá fora chove...

... cá dentro, apesar de continuar no meu "metro quadrado", está sol! :-)

"Com um brilhozinho nos olhos
corremos os estores
pusemos a rádio no "on"
acendemos a já costumeira
velinha de igreja
pusemos no "off" o telefone
e olha, não dá p'ra contar
mas sei que tu sabes
daquilo que sabes que eu sei
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos parados
depois do que não te contei"

Mais Sérgio Godinho que me fez cantar e rir, sozinha, durante a minha viagem matinal com destino ao "metro quadrado" em que me encontro.

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

A principio é simples, anda-se sózinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
Sérgio Godinho
Em tempos que já não sei, alguém que não lembro, dedicou-me esta música. Na altura fiquei triste. Como diz uma amiga minha "até depois do fim-de-semana". Rápidamente percebi que aquele era o primeiro dia do resto da minha vida, rumo à VIDA! :-)

Perdi...


... o meu primeiro cliente. E era o primeiro. Primeiro a vir, primeiro a ir. Fica o carinho que não sei explicar, do tempo em que tudo era novidade.


Perdi…
... a minha estagiária. Foi embora de repente. Ao almoço disse-lhe "até logo", como sempre, respondeu-me "já não venho mais...". Fiquei a olhar, especada. "Espero ter-te ensinado alguma coisa", balbuciei... Não sabia o que dizer. Sei que os estágios não remunerados já não se usam. Ou por outra, usar usam mas não se deviam usar. Tentei ensinar-lhe mas sofro de um problema grave, desisto facilmente das pessoas... O Vinha nunca desistiu de mim. Mas aquilo era um mundo à parte, era a minha/nossa vida, longe desta “vidinha” e eu só queria aprender tudo. Espero que ela se lembre de mim, nem que seja por um dia, quando alguém lhe falar em Press Clipping ou Product Placement ou outros que tais e vá procurar o glossário que lhe fiz com carinho e que espero que tenha guardado.

Diana pergunta...

…porque é que quando alguém vai mais do que duas ou três vezes ao mesmo café lanchar ou tomar o pequeno-almoço e pede, em todas essas vezes, a mesma coisa, o funcionário do café assume que é esse o pedido “eterno” e mal vê a pessoa a atravessar a porta já começa a preparar o dito cujo?

Devido a essa situação hoje tive que entrar no café a correr e ir directa ao balcão. Felizmente cheguei a tempo de trocar as voltas ao homem e dizer que hoje não queria pão com manteiga! E amanhã? Será que me vai prepara o que pedi hoje? Voltar ao menu antigo? Ou finalmente questionar-me sobre o que desejo?

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

Diana pergunta.

Às vezes questiono-me sobre coisas estranhas, uma delas, por exemplo é se os outros também questionarão estas coisas estranhas…
Questão do dia: porque é que os velhinhos hesitam imenso antes de atravessar na passadeira e depois, muitos deles, quase que correm, a medo?
Hipótese A: Será que é devido à falta de respeito da nossa sociedade pelos mais velhos?
Hipótese B: Será que se aperceberam como a vida vale a pena e é fugaz e pode terminar tudo num instante?
Hipótese C: Será que acham que quem vai a conduzir se está a lixar para se os vai atropelar ou não por serem VELHOS?
Não faço ideia...
Por outro lado os novos metem-se literalmente à frente dos carros, sem medo…
Desde que reparei nisto, passei a sorrir para todos os velhinhos que passam à minha frente na passadeira. Paro o carro a uma certa distancia, para se sentirem mais confortáveis, faço sinal que podem atravessar e dou-lhes todo o tempo do mundo. Pode ser que resulte. Até me esquecer disto, como em tudo...

Estávamos em 1996...


Com 15 anos, a inocência permite todos os sonhos desprovidos de condicionantes da razão. Nesta altura, lembro-me que estava a ler “O amor é fodido”, “Os filhos da droga”, os poemas da Espanca e que tentava encontrar desesperadamente “O Crime do Padre Amaro”, que me tinham proibido de ler - por não ser para a minha idade -, nas estantes lá de casa… O que teria escrito lá dentro? Qual o crime?... Nunca o cheguei a saber.
Foi o ano em que me apaixonei pela primeira vez. Ouvia o “Cidade by Night” pela noite dentro, escrevia poemas sentada na minha escrivaninha (será que alguém nascido após 1990 sabe o que é uma escrivaninha?!) de lágrima no olho e sonhava com o príncipe encantado. Não haviam telemóveis (haver haviam, mas eu não tinha e nem quase ninguém que conhecia possuía um). Acho que foi neste ano que tive o meu BIP amarelo. Era preciso telefonar para um número e ditar à operadora a mensagem… Sem dúvida que quem estava por trás devia-se rir o dia todo do que ouvia! Da minha parte, algumas eram indescritíveis. Este também foi o ano em que comecei a comprar às escondidas cigarros avulsos! Fumávamos atrás de um prédio e sentia-me mesmo muito grande. Não sabia travar mas achava que guardava o fumo tempo suficiente para ninguém se aperceber. Ia treinando, ao espelho, quando não estava ninguém em casa… Neste ano também comecei a sair à noite pela primeira vez. Para o Vicio do Álcool. Chegávamos à meia-noite – depois de uma sessão de maquilhagens e roupas em casa umas das outras (ia-mos muitas vezes vestidas de igual!) – e bebíamos Pissang Abom com laranja (curiosamente ultimamente voltei a esta bebida doce). Comprava a Ragazza e guias astrais na esperança de adivinhar o meu futuro (sentimental, claro está!).
As férias eram três meses inteiros passados na praia. De tal forma que até saturava… Lá para Agosto já só queria voltar às aulas! A única responsabilidade era não fazer asneiras nem me meter em nenhuma embrulhada. Nada mais. Ia às aulas – ou ia jogar cartas para o café ao lado do liceu, mais propriamente -, alguns professores chamavam-me “a turista” e tinha a mesa cheia de poemas escritos para a tal paixão – diga-se de passagem que tinha estado com ele umas 4 vezes e nada mais sabia do que o seu nome, mas imaginava perfeitamente o género de pessoa que deveria ser.
Era muito inocente. Mas achava que não! Que já era imensamente grande e que sabia tudo… Olhando para trás até dá vontade de rir. Mas não digo: "só queria ter aquela idade e saber o que sei hoje". Não! Pelo contrário, queria era nunca saber o que sei hoje! Ontem, por exemplo, ouvi no telejornal que uma imigrante em França esteve dois anos morta no seu apartamento sem que ninguém reparasse... As contas eram pagas, a tempo e horas, com aquele sistema de débito directo e, segundo os vizinhos, realmente havia um mau cheiro no prédio. Julgavam que era lixo…
Em 1996, eu, Diana Baptista (com P), com 15 anos de idade e o sorriso dos inocentes, não imaginava que havia pessoas que morriam na mais completa solidão. Aliás, não sabia o significado emocional da palavra solidão.
Hoje, em 2009, eu, Diana Baptista (ainda com o P dos antigos), com 28 anos de idade e o sorriso despassarado dos que não querem crescer, sei que há pessoas que morrem na mais completa solidão. Umas talvez mesmo ao meu lado sem que eu faça nada para as ajudar. Nestes anos todos aprendi a voltar a cara à miséria, à dor, à doença e à solidão. Não é comigo. Se não vir, não existe. Já não tenho 15 anos mas por vezes ajo como se os tivesse. Mas, agora, com a falsa inocência dos tolos.

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

A penosa antecâmara da morte invitável...

"Mais de metade dos nascidos depois de 2000 nos países desenvolvidos poderá vir a atingir os 100 anos de idade. Para quê?"
Conclusão avançada pela Universidade de Odense, Dinamarca in NS 196

"...numa alucinação de vida, que me enchia o coração e que agora vejo perdida"

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

A ficha das ilusões continua ligada à tomada.

Aqui ou em qualquer lugar, por muito que mudem as religiões, os “salvadores” ou as “bíblias”, não muda nada. O Homem consegue estragar tudo o que é puro.
Acreditamos a vida inteira em ilusões. Começa com o Pai-Natal, os contos de Hans Christian-Andersen que povoam o imaginário infantil, continua com o JC, depois o Príncipe Encantado adulto - que não queremos acreditar que não existe durante uma vida inteira - e continua por aí fora com os santos, o céu (ou entrada no paraíso), a reencarnação e outros que tal.
Desilusão após desilusão a mente humana não permite que a ficha das ilusões se desligue da tomada. Acreditamos sempre. Por mais vezes que o coração caia aos pés e se parta em bocadinhos. Acreditamos. Passamos por cima do desgosto e partimos para uma nova derrocada. Acreditamos. Sem mágoas ou entraves à entrada de novos sonhos no imaginário. Acreditamos… Talvez porque o sol continue a acordar, todas as manhãs, não importa o que tenta acontecido na noite anterior, mesmo depois de ter mergulhado fundo no mar, aos olhos do Homem.

Devia ter comprado todos as “liberdades” destes pássaros e - talvez - ter boa sorte e felicidade para sempre!... Nunca se sabe...

Terça-feira, Outubro 13, 2009

Segundo a lenda, sem jamais baixar o arco.

Apesar do seu voto de castidade, tendo-se ela apaixonado perdidamente por Orion, e dispondo-se a consorciá-lo, o seu enciumado irmão Apolo impediu o enlace mediante uma grande perfídia: estavam numa praia quando a desafiou a atingir com a sua flecha um ponto negro que indicava a tona da água, e que mal se distinguia devido à grande distância. Ela, toda vaidosa e sempre disponível para um desafio sem medir as consequências, prontamente retesou o arco e atingiu o alvo, que logo desapareceu no abismo no mar, fazendo-se substituir por espumas ensanguentadas. Era Orion que ali nadava, fugindo de um imenso escorpião criado por Apolo para o perseguir. Ao saber do desastre, cheia de desespero, conseguiu, por intermédio do seu pai, que a vítima e o escorpião fossem transformados numa constelação. Quando a de Órion se põe, a de escorpião nasce. Sempre em perseguição, mas sem nunca se alcançarem.
Como a luz prateada da lua, Artémis percorre todos os recantos dos prados, montes e vales, como uma infatigável caçadora, sem, nunca - surja que contrariedade surgir - baixar o arco.

"Um assessor de imprensa...

...recebe quatro ou cinco vezes mais do que um jornalista”, ouviu-se ontem, a alto e bom som, no Prós e Contras. Estive quase para ligar para lá para me informarem onde. Em Portugal?!...
Uma pequena nota: Verdade seja dita, quem vende a alma ao diabo, devia era pagar para trabalhar.

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

Blasfémias sentimentais desprovidas de sentido.

Já não sei escrever. Não me apetece escrever! – Grito, muda. As palavras ficaram pelo caminho e parecem-me pequenas, ou grandes, ou desprovidas de sentido, ou com sentido a mais - não sei, não me interessa -, sinto-me revoltada comigo própria. Gastei as palavras. Já não valem nada. Já não gosto delas, nem as quero. Já não servem.
Não me apetece escrever! – Grito, muda. E rola uma lágrima perdida nesta “casa de paredes caídas”.
Minto.
Hoje sonhei que me tinha despedido. Ia morar para o Brasil. No sonho estava a arrumar as gavetas da minha secretária. Ia embora. E sentia um aperto tão grande no coração: lá, não tenho amigos, pensava. Não tenho ninguém. Vou ficar sozinha… - Sempre este medo, desde que me conheço, de estar comigo mesma. Almoço muitas vezes sozinha, vou para a praia sozinha, vou lanchar sozinha, vou ver o local em que o rio entra no mar sozinha. Aparentemente sei estar comigo. Minto. Não sei. Tenho tanto medo de não saber, que me obrigo a estar.
Vou escrever futilidades, que é para isso que me pagam. Não para divagar sobre sentimentalidades medíocres que não interessam a ninguém. Vou gastar um pouco mais as palavras. Que valem cada vez menos.

Hoje a manhã acordou mais cinzenta… E o meu sorriso menos brilhante. Sem mais porquês, escrevi todas estas blasfémias sentimentais desprovidas de sentido, confusas, amontoadas... Para me esconder de mim mesma, nesta "praia deserta dos dias que passam onde guardo um sonho que nunca chegou", como diz a música dos Toranja.

Sexta-feira, Outubro 09, 2009

Vida de artista...

Fizeram-nos acreditar que...

...cada um de nós é a metade de uma laranja e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não nos contaram que já nascemos inteiros e que ninguém na nossa vida merece carregar às costas a responsabilidade de completar o que nos falta: nós crescemos através de nós próprios. Se estivermos em boa companhia é só mais agradável.

Quinta-feira, Outubro 08, 2009

Quando a fortuna nos dispensa do trabalho...

a natureza sobrecarrega-nos de tempo.
Antoine Rivarol
Queixamo-nos uma vida inteira do que nos aprisiona mas sem esta regulação social que nos obriga ao metro quadrado em que me encontro diariamente 8 horas por dia, talvez o tempo fosse demasiado extenso para conviver comigo própria. Ou não. Mas talvez o vá saber mais breve do que alguma vez imaginei.
Por outro lado, por vezes certas palavras proferidas ao acaso em situações efémeras subitamente passam a fazer sentido: “Cuidado com o que desejas, pois podes obtê-lo”. Desejo muito, sem pensar: “Quero sol todos os dias. Quero liberdade. Quero paixão. Quero viajar. Quero paz. Harmonia. Alegria. Gargalhadas sem fim.”
E se a chuva não viesse nunca mais? E se a liberdade fosse tão grande que abolisse os laços, a segurança? E a paixão tão avassaladora que consumisse todo o meu corpo e alma? As viagens, essas, tantas que não existiriam lugares desconhecidos, para descobrir, com os quais sonhar? A paz tornar-se-ia inércia. A harmonia em ausência de emoção. E as gargalhadas desprovidas de sentido ou sentimento.
“Cuidado…”. Pois o meu desejo pode-se tornar realidade mudando todo o sentido de diversos seres inocentes que me rodeiam. Apenas através da força do meu pensamento. Do meu pequeno mundo que pode mudar todo o rumo de tantos outros pequenos mundos... E, como castigo, por essa ousadia, tempo infinito que se torna em tal carga volto a desejar o oposto sem pensar, num vai e vem de descuidos que se reflectem neste caos que um pequeno queixume, desejo ou pensamento se pode tornar.

Terça-feira, Outubro 06, 2009

Depois da brecha no tempo...

Custa sempre tanto voltar à “vidinha” que por vezes seria melhor nunca ter saído dela… A ignorância é o único passo possível em direcção à aceitação do que nos é oferecido pela nossa própria condição, por muito que me custe formular estas palavras. Não quero acreditar nelas, mas, infelizmente, sinto-as. O sorriso dos que não conhecem nada mais para além do que o que lhes é oferecido – ou mais precisamente dos que não ambicionam ou questionam nada mais – é o sorriso dos simples, o mais puro que existe!
A “vidinha”, que é aquilo a que me sujeito por medo, continua… Esperou por mim. Como se nunca tivesse existido esta brecha no tempo, como se nunca eu me tivesse ausentado. Segue sem novidade, apenas com o meu “aperto no estômago” pelo regresso a este quotidiano medíocre ao qual vendo diariamente a alma.
O meu sorriso continua a brilhar mas a alma, essa doi. Sempre que penso como o medo é tamanha prisão...