Hoje, no meio dos papéis, deparei-me com o meu relatório de estágio... Estávamos em 2005, tinha 24 anos, o curso quase completo e a cabeça cheia de sonhos. Acreditava que ia vencer. Nunca ia vender nunca a alma ao diabo. Tinha acabado o estágio no jornal O Comércio do Porto. Tinha bebido, durante pouco mais de três meses, aquela gente, aquele trabalho, aquela vida fora do tempo, lá fora. Janeiro, Fevereiro, Março e um pouco de Abril. Aquilo estava mau. O sindicado tinha ido lá algumas vezes. Ouvia. E bebia aquelas palavras. Camaradas...
Aquele tempo foi tão intenso! Vivi naquele primeiro andar, daquela rua na baixa, 100 dias como se de 100 anos se tratassem. Esqueci os amigos, os namoricos,... Esqueci toda a vida lá fora e a minha família era aquela. Tinha 25 anos, a cabeça cheia de sonhos. Era uma miúda, ia conquistar o mundo. Revia os textos com o editor no café em frente, uma tasca onde bebíamos uns finos e comíamos rissóis todos os dias. Jantava muitas vezes com eles. E almoçava. E fumava. E ria. E perguntava. E escrevia. E queria tanto que nunca acabasse... Sentia que aquele era o meu lugar. Os serviços, a agenda, as idas e vindas, a ausência de rotina, a boémia, as notícias, as perguntas,... Tudo era tal e qual como tinha imaginado. Para mim. Até aquelas gentes...
Em Abril acabou o estágio. Podia ficar, sem receber, disseram-me. Aquilo estava mau e não havia dinheiro para pagar. Recusei. Orgulho da menina que acreditava no mundo. Vim embora, com a minha dignidade e o coração desfeito.
No dia seguinte, comprei meia centena de envelopes, fiz um currículo, organizei o extenso portfolio de entrevistas, reportagens, manchetes e notícias e comecei a fazer uma base de dados em Excel com todos os órgãos de informação escrita portugueses. Desde o Expresso ao Avante, passando pelo 24 horas, não houve nenhum que falhasse na minha lista. Enviei o currículo com a bonita carta de apresentação e uma selecção dos meus trabalhos, pelo correio, para todos. Respostas? "Obrigada pelo interesse mas de momento não estamos a admitir ninguém". Algumas respostas. Poucas. Outras, de Lisboa para outro estágio não remunerado... Não podia ir.
Fiquei quase dois anos a fazer "trabalhinhos" e outros cursos sempre na esperança de conquistar o meu lugar que queria tanto para mim...
Um dia, cedi. Fui a uma entrevista para o "outro lado do palco", fiquei e comecei. Pensei que era temporário. Até hoje. Vendi a alma ao diabo.
Na altura, depois do Comércio, entreguei o meu relatório de estágio, um trabalho apaixonado. Muito. Tive 19 valores, dados quer pelo orientador interno, quer pelo externo. Ao relê-lo, agora, passados quase 4 anos, até me vêm as lágrimas aos olhos da inocência e paixão sem pudor das minhas palavras. No final, um texto de Baptista-Bastos que descrevia exactamente tudo o que estava a sentir. Tinha-me sido "dado" pelo meu editor, que admirava profundamente.
Como fui capaz de vender a alma ao diabo?? O que está escrito naquele texto sou eu. E hoje em dia já nem me reconheço...
"Gastei-me neste ofício de perfilar palavras. Profissional de um tribunal de papel, tenho procurado somar a minha débil voz à grande insurreição de choros e soluços, de protestos, recriminações e blasfémias. Rateio as palavras, arrumo-as o melhor que sei e posso, desejo sempre dar-lhes direcção e sentido, tenho os olhos estragados, arranjei uma série de tiques e um número pungente de inimigos ardorosos, quando o mundo era jovem acalentei uma ideia exaltante sobre a condição humana – e ainda há criaturas imponderadas que invejam a sobrevivência triste deste triste senhor português! (...)
Gente estranha, esta. Gente que sabe que esta coisa de escrever nos jornais custa muito mais que alguma coisa. Às vezes até se morre. Gente que diz mal uma da outra, que fomenta a quezília e estimula a intriga. Gente manhosa, maldosa, aflita, ardida, arranhada, postergada. Ah! Como eu vos amo! Como eu vos pertenço e como vocês me pertencem! Somos da mesma laia, da mesma tribo, da mesma seita.
Eh!, vocês aí, que estão a ler-me. Isto é mau, isto é péssimo, isto é absurdo, isto é inqualificável. Não é um modo de vida: é um modo de morte. Uma chatice, uma perversão, um ardil, uma fuga.
Eh!, vocês aí: juntem-se à malta."
Baptista-Bastos