Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

O que doi mais...

...é saber que a ti não te dói nada. Do mais profundo do que há de mais sincero no egoísmo humano, é esta a verdade. Não só, mas também. O resto, fica no segredo do coração onde as dores da alma acalmam com o tempo e a voz da razão tantas vezes impera, surda.

Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

Um pequeno detalhe.

O mundo está povoado de pessoas: Somos actualmente cerca de 7 mil milhões, dizem os peritos. Se é assim, então porque me sinto tão sozinha sem ti? Se és uma gota neste mar gente, porque me fazes tanta falta? Porque me fazes sentir que o oceano és só tu e, para completar da melhor forma, ainda me fazes escrever estas tretas lamechas de mares, gotas no oceano e de amor?

Estou...


Sozinha.

Segunda-feira, Novembro 30, 2009

"Didas..."


Foi de repente. Foi como se um soluço ficasse preso cá dentro, a subir pelo peito, lentamente, sem explodir. Ainda sinto a cabeça a andar à roda, num misto de confusão e racionalidade. Tenho as mãos a suar e já me vi ao espelho – estou mais branca do que o habitual e falta-me um brilho qualquer no olhar, que está parado. Sinto-me a latejar por dentro mas não posso chorar… Porque, quando a questão é grave de mais sou sempre tão racional que se me encontrar num reflexo qualquer quase que me pergunto: quem és tu?...
- “Quem sou eu? Sou a menina que queria ir a correr ter contigo, deitar-me ao teu lado nessa cama em que te imagino sozinho, abraçar-te muito e dizer ‘vai ficar tudo bem, eu estou aqui para o que precisares, para sempre, vais ficar bem!’”.
Porque gosto de ti como se fosses do meu sangue. Porque mesmo que passassem mil anos sem falarmos, existe algo inexplicavelmente mais forte que me liga a ti. E só queria ouvir-te responder: “Didas… Foi só um susto. Estou bem. Foi uma lição para todos nós que andamos para aqui a viver o imediato de forma alucinante sem pensar no futuro ou no mal que fazemos a nós mesmos, mas aprendi, aprendemos todos. Estou bem.”
* Tiramos esta foto juntos... E eu sei que é todo este areal que vou percorrer, a correr de mãos dadas contigo, a rir, até ao mar - não tarda nada - sem que tudo isto não tenha passado de um aviso para todos, nada mais!

Quarta-feira, Novembro 25, 2009

Assim...

“Assim,
Começou assim
Uma coisa sem graça
Coisa boba que passa
Que ninguém percebeu…”

Ainda te lembras? Às vezes questiono-me se ainda ouves música. Se ainda respiras. Se ainda abraças o sol de manhã, Se ainda sonhas. Se ainda corres na rua, sem destino, só pela vontade de sentir o ar frio no rosto e as pernas a tropeçarem, com vida própria, pela velocidade…

Ainda te lembras? Às vezes questiono-me se ainda acreditas. Se ainda pensas em mim antes de dormir. Se ainda bebes leite gelado pelo pacote, sem ninguém ver. Se ainda acreditas que vais mudar o mundo, que vais “ser alguém”.

Ainda te lembras? Às vezes questiono-me se a minha casa tivesse janela para a frente, se voltavas a esperar que te acenasse, antes de ires embora, com o rosto quase colado ao vidro do carro. Se ainda te ris sem saber porquê. Se o teu coração ainda bate mais forte, de repente, e as mãos suam sem razão lógica aparente.

Ainda te lembras? Às vezes questiono-me porque a vida muda tanto a gente e porque não basta um abraço e um sorriso para ficar tudo bem. Como na infância. Ontem voltaste-te para trás à despedida, olhaste-me, depois do abraço, do nosso abraço. E, esse gesto já tão perdido no tempo, fez-me ouvir música cá dentro, respirar profundamente, sentir o calor do sol mesmo sendo noite, sonhar acordada, correr pela rua, acreditar, pensar em ti antes de adormecer, beber leite gelado atrapalhadamente e deixa-lo escorrer pelo rosto, acreditar que vou mudar o mundo, ir à janela - que nem tenho - ver se estarás lá em baixo à minha espera, rir, rir e rir e sentir o coração a bater quase junto á boca, quase a saltar do peito…

“Fez-se uma pausa no tempo
Cessou todo meu pensamento
E como acontece uma flor
Também acontece o amor!”

Lembras-te quando éramos pequeninos e bastavam dois beijos no rosto e um pedido de desculpa, com cara de medo, para desatarmos a correr, de novo, os dois juntos, para o escorrega, sem mágoas, com o coração sarado?... As crianças têm razão, do alto do seu meio metro têm sempre razão, são justas, na inocência dos justos, porque tudo o que é importante não se vê com os olhos ou com a razão, vê-se com o coração. Sente-se. Cá dentro. E por vezes tenho a certesa que ainda te lembras e todas as questões deixam de fazer sentido.

Afinal - mais uma vez - parece que não sou a única a oscilar.

Só pensamos no que queremos no próprio instante em que o queremos, e mudamos de vontade como muda de cor o camaleão. O que nos propomos em dado momento, mudamos em seguida e voltamos atrás, e tudo não passa de oscilação e inconstância. “Somos conduzidos como títeres que o fio manobra” (Horácio)

Michel de Montaigne in ensaio “Da incoerência das nossas acções”

Terça-feira, Novembro 24, 2009

O mordomo dos tempos modernos.

“Olá. Tenho 34 anos, sou acompanhante, 1,75m, com muita boa aparência, super discreto, sigiloso e ultra-higiénico. Sou totalmente desinibido e se quiseres obter mais alguma informação (disponibilidade, condições, fotos, etc.) por favor contacta-me. “
Este é um excerto do anúncio do Filipe, com 35 anos, que atende senhoras. Faz de acompanhante, de motorista, dá massagens, cozinha e dispõe-se a concretizar as fantasias de qualquer mulher. Diz-se divertido, bom conversador, discreto, honesto e paciente - e nós acreditámos, porque quem é um bom profissional a aturar mulheres só pode ter estas catacterísticas e mais algumas. Cobra ente 75€ (uma massagem), até 300€ (por um dia bem passado que inclui jantar e tudo!). As despesas de aluguer de carro, hotel, etc são por conta da cliente.
Contra factos não há argumentos: “alguma vez esteve com alguém unicamente preocupado com o seu prazer? Um homem que lhe faz uma massagem, o jantar e que a ouve?”. Não poderia ser mais sugestivo, apenas me atreveria a acrescentar: um homem que não fale do que não lhe apetece ouvir, que não olhe para a televisão fixamente mesmo que estejam a dar as televendas, um homem que não chateia, que não critica e que só opina de acordo com o que a mulher quer ouvir. Um homem que elogia, que apoia, que lhe diz que está bonita mesmo que tenha acabado de acordar com o cabelo género novelo de lã. Um homem que só sorri, nem que seja por pensar no dinheiro que está a amealhar para quando o corpinho já não lhe valer de muito e tiver que se reformar. Feitas as contas, por menos de 10.000€ mensais é possível ter este príncipe encantado, todos os dias do mês lá por casa. E ele ainda lava a loiça, cozinha, vai às compras, passeia o cão, passa a ferro e não ressona (porque se ressonar é só ligar para a agencia de acompanhantes e é imediatamente substituído!), veste o que quisermos e usa o tal perfume que nos deixa malucas! E isto tudo sem nunca se queixar! Por muito românticas que todas as mulheres possam ser, quem consegue resistir a este mordomo dos tempos modernos?...
* Entrevista ao Filipe na NS de 25 de Outubro de 2009, já agora, para quem estiver interessada em experimentar, o email dele é filipe.borges@yahoo.com
* * Já estou a imaginar todos os comentários que me irão deixar sobre o amor, a familia, a conquista, etc... Mas, que me importa?! Se tivesse 10 mil euros por mês a mais, estaria sem dúvida num veleiro qualquer com o meu mordomo vestido com um reduzido fato de marinheiro a trazer-me margueritas a toda a hora!

Segunda-feira, Novembro 23, 2009

Nós, os excessivos.

Natureza é para gente sadia, a subgente normal… Nós, excessivos em Oiro, libertámo-nos dela. Engano-me – contrariamente aumentámo-la: damos-lhe uma alma, e só o seu espírito – o espírito que lhe criamos – nos suscita os desejos.
Mário de Sá-Carneiro in Ressureição

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

No Homem maduro,

as paixões estão ao serviço da inteligência; no Homem imaturo, a inteligência está ao serviço das paixões. - Máxima Egípcia

Se...

Mal conhecemos alguém e queremos logo mudar essa pessoa. Moldá-la ao que achamos correcto ou “melhor”. Inconscientemente, desejamos que ela seja desta ou daquela forma, que faça isto ou aquilo, que vista aquele vestido com que tanto gostamos de a ver. Se nos conta algum problema, temos sempre a solução: Faz assim, não faças assado. E quanto mais gostamos menos queremos aquilo que nos é apresentado, julgando sempre que se as coisas fossem diferente, se ele fosse mais responsável, mais carinhoso, menos inconsequente, mais poupado, menos aluado, que tudo seria perfeito. Mas ele não é. Nem vai ser. Nem ela pode usar todos os dias aquele vestido com que tanto gostamos de a ver no primeiro encontro. E se usasse, a espontaneidade da descoberta, do imprevisto, deixaria de existir e o vestido perdia a graça.
Mal conhecemos alguém e, em vez da alegria da descoberta de um novo ser humano, que tanto trará para iluminar ou revelar, substituímos essa felicidade pelos desejos mais egoístas da vontade de moldar tudo ao nosso próprio eu, defeituoso. Não admiramos a diferença, a espontaneidade, o imprevisto. Não ouvimos. Julgamos, aconselhamos. Não abraçamos. Queremos que ele nos abrace. Não vamos com ela. Queremos que ela venha connosco. Não enxugamos as lágrimas. Provocamos mais. Não perguntamos “como te sentes?”, dizemos “sinto-me triste”. Mal conhecemos alguém e passamos logo a exigir que esse ser seja aquilo que nós não conseguimos ser.

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Sou dois.

Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados.
Fernando Pessoa - Livro do Desassossego

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

O que nasce, morre.

Um dia, Siddharta encontrou no caminho um homem em agonia, com o corpo deformado pela dor, e perguntou o que vinha a ser aquilo! "Não é nada de extraordinário, é um homem doente. Todas as pessoas adoecem", respondeu-lhe o servo. Siddharta regressou ao palácio pensativo...
Na próxima vez que foi à cidade, encontrou no caminho um velho fraco que tinha perdido a visão. Perguntou ao servo o que era aquilo e o servo disse: "Nada de extraordinário. É um velho. Todas as pessoas serão velhas". Mais uma vez, Siddharta regressou ao palácio pensativo…
Na sua terceira visita, viu passar um cortejo, onde as pessoas choravam e, dentro de uma caixa, estava um corpo que parecia repousar. Siddharta perguntou, "O que é isto?" e o servo disse, "Nada de extraordinário, é o funeral de uma criança. Todas as pessoas morrem um dia". Pela terceira vez, Siddharta regressou ao palácio pensativo…
Finalmente, na sua última visita, passou por um monge errante que pedia esmolas. A sua face reflectia um espírito tranquilo, caminhava com graça, sem medo e sem orgulho. Siddharta percebeu então que era assim quando se quebravam todos os elos e quando se compreendia o sofrimento, a causa do sofrimento, levando á extinção das causas e do próprio sofrimento. Concluiu então que resolver estas problemáticas e difundir a palavra seria útil e imprescindível para todos os Homens.

Especialmente Sartre e Beauvoir II

Já para o fim da vida, doente, Sartre consultou um médico que o avisou: se continuasse a fumar e a beber daquela forma provavelmente teriam que lhe amputar primeiro os dedos dos pés, depois os pés e, até quem sabe, as pernas! Sartre respondeu: vou pensar nisso.
Continuou a beber e a fumar desalmadamente. Mesmo quando Simone já não lhe levava bebidas nem cigarros, uma das mulheres do seu clã, dava-lhe o mimo. A Simone, Sartre mentia, especialmente a ela.
Afinal para que lhe serviam as pernas, os pés, os dedos, se todo o seu encantamento residia na palavra, na cabeça, nas ideias?... Sempre tinha detestado a natureza, os passeios no campo, o mar e o céu, se ficasse privado de correr por um campo verdejante, húmido e amplo, não ficaria privado especialmente de nada. Mas se o impedissem da vida boémia a que sempre estivera ligado… Aí, sim, seria a morte do artista!

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

Pequeno-grande-almoço!

Melhor do que aqueles sacos do pão que se usavam (??) em tecido, com as iniciais bordadas (ou com o que lá quiséssemos inscrever), que se colocavam à porta de casa para o pão quentinho, só mesmo estes que alimentam corpo e alma e fazem de um pequeno, um grande-almoço!

Especialmente Sartre e Beauvoir I

“Mentia especialmente a Simone”, confessa Sartre numa entrevista relatada na biografia “Sartre e Simone – História de uma vida em comum”, de Hazel Rowley. Um livro que, apesar de volumoso, se lê de um sôfrego apenas. Uma história cheia de contradições humanas em que os criadores das regras acabam por ser engolidos, esmagados pelas mesmas, numa luta constante pela liberdade do “eu”. Um relato de um planeta incomum, o dos intelectuais, que é movido a literatura, a álcool, a boémia, a excesso, a prazer e a loucura e onde parecem não existir convenções. Este é o relato de um escândalo irresistível que transporta o leitor para as questões fundamentais que pairam na mente humana.
Até mesmo os filósofos, os génios, especialmente esses, tropeçam nas suas convicções. Sartre e Simone, que juram um ao outro fidelidade intelectual, liberdade e verdade, corromperam todas as regras numa vida que chegou a tocar o inverosímil, a insanidade, a loucura. Sartre mentiu por toda a vida, especialmente a Beauvoir, como confessa. Sartre tinha medo do incerto, tinha uma agenda semanal extremamente meticulosa e monótona onde tudo se encaixava de forma rotineira e cadenciada, contrariando toda a liberdade que proclamava. Sartre, um homem pequeno, feio e mal cuidado, afirmava que só concebia a amizade com pessoas belas. Sartre, que era ferozmente contra o casamento, chegou a ponderar casar com duas ou três das mulheres que passaram – e permaneceram – pela sua vida, “se não fosse muito demorado”, como comentou. Simone, acérrima feminista e defensora da primazia da independência financeira das mulheres, aceitava que Sartre sustentasse cerca de seis mulheres, que pertenciam ao clã de ambos. Quer Simone, quer Sartre, não respeitavam os sentimentos dos que juravam “amar”, houve até uma das suas mulheres que se chegou a suicidar, levando-os a interrogarem-se se a culpa não teria sido deles... Ambos escreveram imensos livros auto-biográficos em que punham a nu, sem escrúpulos, a vida dos que os rodeavam e onde revelavam terem-se envolvido uns com os outros numa cadência infinita de relações paralelas. Revelavam até que, cada carta que escreviam para as suas relações complementares, com juras de amor, era lida ao outro e comentada, reduzindo a nada, especialmente a nada, todas essas histórias.
A “História de uma vida em comum” é isso mesmo, a vida em comum destes dois seres, levada ao estremo. É a história de Sartre e Beauvoir. Apenas deles, especialmente deles. Porque, embora tivessem uma relação aberta, nunca ninguém coube verdadeiramente nela. Pelo sumo desta intensa biografia percebe-se que, o Castor, como ele lhe chamava, foi especialmente submisso a Sartre, amando-o como todas as outras mulheres amam um homem: cedendo, aceitando, idolatrando, apaziguando, vivenciando, sendo a mulher condenável do Segundo Sexo, a mulher que assume a condição de mulher.

Terça-feira, Novembro 10, 2009

Quiçá...

Estou feliz por duas vezes por ano ter que fazer um trabalho que odeio. É o retiro que preciso para dar valor ao que tenho diariamente. E não sei porquê, desta vez nem tem sido tão mau… Talvez o Homem se vá conformando com o que o rodeia e tudo não passe de uma questão de hábito. Ou então de conformismo, quiçá…

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

Incompreendida...

(...)
De Formião, filósofo elegante,
Vereis como Anibal escarnecia,
Quando das artes bélicas, diante
Dele, com larga voz tratava e lia.
A disciplina militar prestante
Não se aprende, Senhor, na fantasia,
Sonhando, imaginando ou estudando,
Senão vendo, tratando e pelejando.
(...)

Camões, num lamento por ser incompreendido. Tal e qual como me sinto hoje: Incompreendida pelo escárnio dos que não sabem que aqui dentro também mora um coração.

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Como eu não possuo

Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Mário de Sá Carneiro

Como é que alguém partiu aos 26 anos pôde deixar tantas marcas neste mundo?! Membro da geração Orpheu, poeta, responsável pela introdução do Modernismo, contista, ficcionista… Conheceu Pessoa, o seu mais compreensivo amigo, e Almada Negreiros, estudou na Sorbonne, influenciou vários escritores… Foi extravagante em vida e até na morte! Louco, insatisfeito, inconformista. Fez mais em apenas pouco mais de duas décadas do que a maioria de nós numa vida inteira. Aliás, o que andamos a fazer nós, os que não fazem nada, durante tanto tempo?! A olhar para o tédio?... À procura do elixir da vida eterna?... Se a morte é a única coisa que dá sentido à vida, porque aceitamos esta rotina alienadora de todas as glórias?...
Ouvi, há uns dias, alguém dizer que os actuais 40 são os antigos 30. Concordo e diria mais: são os actuais 20 ou 15. Nesta correria em que vivemos afinal o tempo é longo de mais para sermos alguém. E não possuimos nada... Jamais, em tempo algum, nada do que Sá Carneiro, por exemplo, possuiu: a eternidade.

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Débil mental

“É feio perguntar se um amor vale ou não a pena. Uma paixão que faz exigências, que tem necessidades para satisfazer, exercendo pressão sobre uma pessoa incerta, revela uma alma sôfrega e ingrata. É pena porque são quase todas assim (as paixões).(...)
A combinação ideal é um homem apaixonado e uma mulher nem por isso. Os homens gostam mais de amar, as mulheres de ser amadas. Os homens têm medo de ser amados. Apetece-lhes fugir. As mulheres não gostam de se ver apaixonadas. Perdem o respeito por si próprias. E têm medo de sofrer e de serem vistas.” - MEC in Cemitério de Raparigas
este excerto não tem nada a ver com nada o que me vai na alma nem quer dizer nada de nada mas como sou baralhada por natureza apetece-me baralhar um pouco mais e desconcertar(-me) aliás nem concordo com o que está aqui escrito apesar de ter sido o grande MEC por vezes queria era ser menos débil mental e não esmagar tudo com este meu feitiozinho de bradar aos céus e com esta mania de que posso tudo digo tudo choco tudo e todos apetece-me um café amargo e um rebuçado para adoçar o coração vou tomá-lo saboreá-lo e aproveitar porque de caminho o café aqui passa a custar 25 cêntimos e hoje ainda é de graça não que seja poupada outra coisa que devia mudar nem que ligue muito a dinheiro afinal para que serve o dinheiro se não for para gastar mas apetece-me desconversar e mudar este excerto não tem nada a ver com nada o que me vai na alma a não ser o título do livro que era onde eu deveria estar para ver se renasço com tino e deixo de ser esta menina mimada que tudo quer e não sabe nada claro que todos os amores valem a pena hoje porque amanhã podem não valer de nada mas penso isto agora e daqui a meia hora já penso o contrário sou mesmo débil mental e não me apetece usar pontuação que é para ver se começo a poupar que a vida está cara

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Vinho tinto, mais um riso - pouco siso!

Vinho tinto, um copo cheio que rola de entre os dedos. Na boca vermelha que sorve este fim de tarde maduro. Vinho tinto, vinho a copo, vinho carnudo e encorpado que provoca o rubor dos que o sorvem. Dos que o provam, saboreiam...
Vinho de risos perdidos entre goles, vinho que quebra os medos e todos os limites. Vinho que enlouquece, que aquece e que faz bem à alma. Vinho de fim da tarde, que entra pela noitinha, e que faz parar o tempo como se o amanhã não viesse nunca mais.
E é mais um copo, mais um riso - pouco siso - até que o sol nos acorde deste entorpecimento de alma que deixa o corpo dormente e quente...

...

Numa guerra sem combates, prisioneiros, dor ou guerreiros, cruzam-se sentimentos, impulsos, desejos, palavras por proferir. Energias que percorrem o corpo de encontro à alma, sem retorno, a qualquer instante. Numa guerra, cá dentro, do bem e do mal, do certo e do errado, do que tem que ser ou não pode ser, neste mundo secreto em que mergulho - mais, cada dia mais! sem jamais confessar -, o combate é grande. Sem oposição, sem luta nem hostilidade. Nesta guerra a que sei que me irei render, por fim, numa mar de sentimentos cruzados difíceis de conquistar...

Sou má pessoa.

Se alguém está doente, não sofremos por ele mas pelo medo de o perder, de nunca mais o ver ou o abraçar. Se dizemos “amo-te” é para ouvir de volta “também te amo a ti”. Se vamos trabalhar todos os dias é porque, mesmo que não precisássemos do salário, o que iríamos dizer aos outros, como iríamos assumir a preguiça e a inércia sem que nos criticassem, sem que nos pusessem à margem da sociedade, como marginais?! Se mantemos o lar limpo e arrumado é pelo que as visitas ou os que moram connosco poderão pensar da desorganização, do caos. Tudo pelo que advirá. Pela recompensa. Nada porque é o que tem que ser feito, sem medos, sem porquês. Não obstante, continuamos a desejar as melhoras, a dizer “amo-te”, a ir trabalhar todos os dias e a arrumar o lar. Continuamos a mentir a nós próprios e a fingir que somos bons seres humanos. A maioria. Depois existem os outros que confessam: sou má pessoa! Mas ninguém crê.

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Precisamos é de Viagra!

Embora usufrua da liberdade que outras conquistaram por e para mim, e à qual em tempo algum abdicaria, acredito que o actual caos social das relações afectivas em que estamos todos - uns mais que outros, mas todos – envolvidos, se deve primeiramente à desmaterialização do papel da mulher.
Acredito que homens e mulheres têm capacidades distintas. As mulheres foram feitas para pensar, sentir, coordenar e conservar, os Homens para agir, pôr em prática. As mulheres estando em casa, a organizar o lar, como meninas prendadas cujas qualidades eram essenciais, e gerindo a vida familiar e a educação dos filhos, traziam a harmonia necessária para a sociedade, cumprindo o seu papel. Aos homens, a esses, cabia-lhes a função de segurança física e financeira, da segurança familiar. Assim tudo estava equilibrado, todos estavam enquadrados na função para a qual estavam predestinados. Havia tempo... Havia enamoramento, havia estabilidade, havia sonho, havia fantasia...
Acredito também que, para além da emancipação da mulher, a culpa desta sociedade fast-tudo em que nos tornamos, é das novas tecnologias. Cinquenta anos de agora seriam cinco mil de antigamente! Tudo é rápido, fácil e descartável. A começar pela informação e a terminar nas relações humanas, nas mulheres, nos homens, nos amigos, amantes, maridos e namorados. Esperamos respostas rápidas, amor rápido, comemos rápido, sabemos rápido, fodemos rápido. Tudo. Rapidamente. E, depois, procuramos prolongar aquilo que já terminou - por ser bom. Procuramos que o que finda recomece, sem conseguirmos recuperar o que já foi.
Como vi escrito ontem numa publicidade de um medicamento: “Um, dois, três e… Pronto já está, acabou…”. Precisamos de Viagra, é o que é, Viagra para toda esta lufa-lufa em que tornamos esta sociedade, e a nós mesmos particularmente, vivendo o amanhã como se o hoje não fosse presente. Precisamos de Viagra, de regras, de mulheres-em-casa-homens-no-campo e de Homens, simples, para sermos completos.

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Vem comigo conversar enquanto o vinho se esgota!

Vem beber dois. Toda a vida
É uma coisa sem nexo
Que só se sente bebida
Quando perde o nexo e o sexo.
Vem comigo conversar
Enquanto o vinho se esgota.
Que mais nos vale este estar
A morrer-nos, gota a gota?
Tudo é absurdo. Nada obriga.
E sobre esta confusão
É ponte o fio que liga
A taberna ao coração.

Fernando Pessoa

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Parecia não precisar de ninguém.

Pelo menos, de ninguém em particular. Gostava de ter pessoas à sua volta, gostava do ruído das vozes em fundo. Precisava de ter uma mulher apaixonada por ele e também gostava que ela - apesar de se queixar disso - precisasse dele. Mas, desde que pudesse sentir-se amado, nunca era mais feliz do que quando estava sozinho com a sua caneta, papel e livros. In A história de uma vida em comum - Hazel Rowley
O pior de ler um livro muito bom é que nunca mais o vamos poder voltar a ler, com a descoberta surpreendente de quando ainda não o lemos…

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Quem não for ainda famoso aos 28 anos,

deve renunciar à glória para sempre, afirmou Sartre com 29 anos, quase 30, e nunca ninguém ouvira falar dele.

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Se não existir Deus...

...o homem não tem ao que se apegar. É livre, só e sem desculpas, dizia Sartre. Assim, Simone podia deixar-se fotografar como uma Playgirl sem culpa, livre, mesmo naquela época.
Ao reler, recentemente, "A Nausea" deparei-me com o nada que espera todos os Homens, com o "não ter ao que se apegar". Se vamos certamente morrer, a vida não tem sentido - dizia ele -, mas o problema está no momento em que se toma consciência de que a vida é desprovida de razão de ser, absurda...

A vida que se lixe!

Alguém me disse que me colava ao MEC. Que tudo o que escrevia era MEC. Que ligava demasiada importância ao MEC. Que o meu Heypokeimenon era MEC, MEC e mais MEC por todo o lado, que já enchia, saturava, agoniava. Alguém que não prestou a devida atenção ao lugar que se estende e permanece por baixo das coisas que conhecem um nasci­mento, um crescimento, uma modificação, e que, certamente, nunca leu uma linha escrita pelo MEC nesta, nem em outra “vidinha” qualquer.
Sim, vou confessar o óbvio: gosto do MEC. Bebo MEC. Se pudesse “colava-me” ao MEC – mas isso seria insultá-lo! – e não me importava de o conhecer e falar com ele horas a fio no que imagino que seria uma guerra efusiva de palavras, sem medos. Gosto do que tem lá dentro dele. Gosto da forma como brinca com as palavras, que se tornam fáceis, ditadas pelas suas mãos. Do jeito de dizer o que lhe apetece, sem ser o que lhe vai na alma, apenas o que lhe dá na gana em determinado momento. Gosto do caos interno a que sobreviveu (ou não), gosto da forma como se agarra às letras como se elas fossem findar, de repente. Gosto da força que só ele lhes sabe dar. E, por isso mesmo, e também por causa das coisas, porque não dou pessoa de me ficar, como diz o povinho, aqui vai mais um bocadinho de MEC (e ainda por cima repetido, que é para chatear ainda mais!):

“O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”

Porque quem não sente é feliz.

O Homem sem aspirações é o Homem feliz. Digo eu! Ou como disse o Pessoa:

“O mundo é de quem não sente. A condição essencial para ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela que conduz a acção. Há duas coisas que estorvam a acção: a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda acção é, por sua natureza, a projecção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por seres humanos, segue que essa projecção é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir, e esmagar os outros, conforme nosso modo de agir.
Para agir é, pois, preciso que não nos importemos com facilidade às personalidades alheias, suas dores ou alegrias. Quem simpatiza pára. O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte: ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre a qual pisa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ser humano que, não lhe podendo resistir, tanto faz que fosse homem ou pedra, pois, tal qual pedra, afasta e passa por cima.
Todo o homem de acção é essencialmente animado e optimista porque quem não sente é feliz.(…) O resto, (...) é a vaga humanidade geral, amorfa, sensível, imaginativa, e frágil. (…)

Livro do Desassossego - Fernando Pessoa

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

O Homem quer é força para acreditar em algo que o livre da incógnita!

Cada um de nós procura encontrar-se não para se conhecer, para saber quem é - como muitos professam - mas para combater o medo da incógnita, do inseguro, do incerto. O medo de não estar catalogado.
Muitos filhos tombam ao descobrirem-se adoptados. De repente tudo, o que tinham como certo, torna-se incerto e procuram aquilo a que chamam de “as suas raízes” - como se já não soubessem quem são! - e como se nelas estivessem todas as resposta para os seus medos.
Quem sou hoje pode não ser o que fui ou o que serei amanhã. Aliás, posso ser quem eu quiser, a qualquer momento, sem que tenha que passar uma vida inteira à minha procura, para nunca me encontrar. Não preciso de conhecer o passado ou tentar adivinhar o futuro para existir, tal e qual como sou. Não interessa o que mostro de mim, o que os outros acham de mim, o que eu própria acho de mim, porque o “eu”, esse, é independente e é a soma de todas essas conclusões, existindo só porque o corpo continua a respirar todos os dias. O resto, não quero saber.
Criamos falsas bengalas: Uns acreditam na vida depois da morte, em Deus e na reencarnação, outros acreditam que não há nada, que não existe nada, nem acontece nada depois deste mundo. Cada um, à sua maneira, tenta encontrar conceitos que acalmem esses medos que, soltos, consumiriam o Homem por completo.
Sempre foi assim, sempre será. Vê-mos, no que os nossos semelhantes acreditam, força para acreditar em algo que nos livre da incógnita. E, no fundo, se pensarmos bem, tudo não passa de especulações sem provas concretas. A nossa existência existe e apenas é limitada por todos os receios que insistimos em recalcar dia-a-dia, com medo até mesmo deles! Será mesmo que, como dizia o outro, "uma vida não questionada não merece ser vivida"??

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Homenagem ao meu tupperware!

Hoje aconteceram-me mesmo MUITAS coisas boas - e o dia ainda vai a meio! O que é sempre de desconfiar… Se me aconteceram TANTAS coisas boas em catadupa, ao mesmo tempo, desenfreadamente, imagino que as más se avizinhem na mesma forma. E, se aguentar emoções de tanta coisa boa não é fácil, pior deverá ser aguentar as tormentas!
O meu tupperware (ou como é mais conhecido, carro), fez ontem 100.000 quilómetros. Estava eu a vir para o trabalho, a trautear músicas quase aos gritos, quando olhei para o painel e… vi bastantes mais números que o normal! CEM MIL! Não resisti a fazer umas festinhas no volante aka focinho do tupperware e lembrei-me que neste pequeno espaço de dois anos em que tomo conta dele, já o fiz passar por muito: Pneus furados, multas, operações stop, deixá-lo na rua a dormir por não estar em estado para conduzir, fazer mudanças de casa de outros com malas até cima e outros que tais. Pior, fi-lo andar pintado de cor-de-rosa, com um desenho ridículo de uma Koala uns bons seis meses… Coitado.
Depois da efusiva descoberta, comecei a pensar… Cem mil, aquela bola tão pequenina,… Mais coisa menos coisa ainda me pára na estrada e recusa-se a andar mais. Dez anos é muito para um Smart! Agora, com esta maré de boa sorte, comecei realmente a achar que se calhar o que se avizinha não vão ser boas noticias e que ainda vou ficar apeada.
Enfim, nunca aproveitamos o momento e eu estou mais uma vez a pensar no que virá a seguir!! Mesmo que com este sorriso de felicidade, que não consigo esconder, estampado no rosto!
A ver vamos, como diz o povinho. Ainda me sai o Euromilhões na próxima semana - não que eu jogue mas se tiver que ser acredito profundamente que o bilhete vencedor virá ter comigo, não sei como, nem porquê!... - e escuso de me preocupar mais com detalhes.

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Ai quem me acode!!

Isto de beber sangria à hora do almoço e vir trabalhar tem que acabar! É inadmissível estar aqui presa no meu “metro quadrado” com tantas gargalhadas retraídas. Ainda por cima, como somos três e tornamo-nos maioria, parece-me inadequado a nossa presença no local laboral. Estamos a destabilizar os restantes membros.
Ou, como comentou alguém, ontem pela noitinha, à hora dos mágicos cansaços, sem copo de tinto, mas em frente ao meu copo meio cheio, “pois, tu gostas de pensar..”. Pois gosto. E aqui penso em quê?! Aqui fechada a ver o sol pela cortina fechada?! No que se vai usar na próxima estação?? Nas calças para a produção de moda da Vogue?? Na peças que o Paulo Vitém vai escolher ao showroom??
Ai quem me acode!! Quem telefona para cá, com voz enrolada, como em dias de exame no secundário, e faz uma ameaça de bomba de jeito? Quem?

Lá fora chove...

... cá dentro, apesar de continuar no meu "metro quadrado", está sol! :-)

"Com um brilhozinho nos olhos
corremos os estores
pusemos a rádio no "on"
acendemos a já costumeira
velinha de igreja
pusemos no "off" o telefone
e olha, não dá p'ra contar
mas sei que tu sabes
daquilo que sabes que eu sei
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos parados
depois do que não te contei"

Mais Sérgio Godinho que me fez cantar e rir, sozinha, durante a minha viagem matinal com destino ao "metro quadrado" em que me encontro.

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

A principio é simples, anda-se sózinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
Sérgio Godinho
Em tempos que já não sei, alguém que não lembro, dedicou-me esta música. Na altura fiquei triste. Como diz uma amiga minha "até depois do fim-de-semana". Rápidamente percebi que aquele era o primeiro dia do resto da minha vida, rumo à VIDA! :-)

Perdi...


... o meu primeiro cliente. E era o primeiro. Primeiro a vir, primeiro a ir. Fica o carinho que não sei explicar, do tempo em que tudo era novidade.


Perdi…
... a minha estagiária. Foi embora de repente. Ao almoço disse-lhe "até logo", como sempre, respondeu-me "já não venho mais...". Fiquei a olhar, especada. "Espero ter-te ensinado alguma coisa", balbuciei... Não sabia o que dizer. Sei que os estágios não remunerados já não se usam. Ou por outra, usar usam mas não se deviam usar. Tentei ensinar-lhe mas sofro de um problema grave, desisto facilmente das pessoas... O Vinha nunca desistiu de mim. Mas aquilo era um mundo à parte, era a minha/nossa vida, longe desta “vidinha” e eu só queria aprender tudo. Espero que ela se lembre de mim, nem que seja por um dia, quando alguém lhe falar em Press Clipping ou Product Placement ou outros que tais e vá procurar o glossário que lhe fiz com carinho e que espero que tenha guardado.

Diana pergunta...

…porque é que quando alguém vai mais do que duas ou três vezes ao mesmo café lanchar ou tomar o pequeno-almoço e pede, em todas essas vezes, a mesma coisa, o funcionário do café assume que é esse o pedido “eterno” e mal vê a pessoa a atravessar a porta já começa a preparar o dito cujo?

Devido a essa situação hoje tive que entrar no café a correr e ir directa ao balcão. Felizmente cheguei a tempo de trocar as voltas ao homem e dizer que hoje não queria pão com manteiga! E amanhã? Será que me vai prepara o que pedi hoje? Voltar ao menu antigo? Ou finalmente questionar-me sobre o que desejo?

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

Diana pergunta.

Às vezes questiono-me sobre coisas estranhas, uma delas, por exemplo é se os outros também questionarão estas coisas estranhas…
Questão do dia: porque é que os velhinhos hesitam imenso antes de atravessar na passadeira e depois, muitos deles, quase que correm, a medo?
Hipótese A: Será que é devido à falta de respeito da nossa sociedade pelos mais velhos?
Hipótese B: Será que se aperceberam como a vida vale a pena e é fugaz e pode terminar tudo num instante?
Hipótese C: Será que acham que quem vai a conduzir se está a lixar para se os vai atropelar ou não por serem VELHOS?
Não faço ideia...
Por outro lado os novos metem-se literalmente à frente dos carros, sem medo…
Desde que reparei nisto, passei a sorrir para todos os velhinhos que passam à minha frente na passadeira. Paro o carro a uma certa distancia, para se sentirem mais confortáveis, faço sinal que podem atravessar e dou-lhes todo o tempo do mundo. Pode ser que resulte. Até me esquecer disto, como em tudo...

Estávamos em 1996...


Com 15 anos, a inocência permite todos os sonhos desprovidos de condicionantes da razão. Nesta altura, lembro-me que estava a ler “O amor é fodido”, “Os filhos da droga”, os poemas da Espanca e que tentava encontrar desesperadamente “O Crime do Padre Amaro”, que me tinham proibido de ler - por não ser para a minha idade -, nas estantes lá de casa… O que teria escrito lá dentro? Qual o crime?... Nunca o cheguei a saber.
Foi o ano em que me apaixonei pela primeira vez. Ouvia o “Cidade by Night” pela noite dentro, escrevia poemas sentada na minha escrivaninha (será que alguém nascido após 1990 sabe o que é uma escrivaninha?!) de lágrima no olho e sonhava com o príncipe encantado. Não haviam telemóveis (haver haviam, mas eu não tinha e nem quase ninguém que conhecia possuía um). Acho que foi neste ano que tive o meu BIP amarelo. Era preciso telefonar para um número e ditar à operadora a mensagem… Sem dúvida que quem estava por trás devia-se rir o dia todo do que ouvia! Da minha parte, algumas eram indescritíveis. Este também foi o ano em que comecei a comprar às escondidas cigarros avulsos! Fumávamos atrás de um prédio e sentia-me mesmo muito grande. Não sabia travar mas achava que guardava o fumo tempo suficiente para ninguém se aperceber. Ia treinando, ao espelho, quando não estava ninguém em casa… Neste ano também comecei a sair à noite pela primeira vez. Para o Vicio do Álcool. Chegávamos à meia-noite – depois de uma sessão de maquilhagens e roupas em casa umas das outras (ia-mos muitas vezes vestidas de igual!) – e bebíamos Pissang Abom com laranja (curiosamente ultimamente voltei a esta bebida doce). Comprava a Ragazza e guias astrais na esperança de adivinhar o meu futuro (sentimental, claro está!).
As férias eram três meses inteiros passados na praia. De tal forma que até saturava… Lá para Agosto já só queria voltar às aulas! A única responsabilidade era não fazer asneiras nem me meter em nenhuma embrulhada. Nada mais. Ia às aulas – ou ia jogar cartas para o café ao lado do liceu, mais propriamente -, alguns professores chamavam-me “a turista” e tinha a mesa cheia de poemas escritos para a tal paixão – diga-se de passagem que tinha estado com ele umas 4 vezes e nada mais sabia do que o seu nome, mas imaginava perfeitamente o género de pessoa que deveria ser.
Era muito inocente. Mas achava que não! Que já era imensamente grande e que sabia tudo… Olhando para trás até dá vontade de rir. Mas não digo: "só queria ter aquela idade e saber o que sei hoje". Não! Pelo contrário, queria era nunca saber o que sei hoje! Ontem, por exemplo, ouvi no telejornal que uma imigrante em França esteve dois anos morta no seu apartamento sem que ninguém reparasse... As contas eram pagas, a tempo e horas, com aquele sistema de débito directo e, segundo os vizinhos, realmente havia um mau cheiro no prédio. Julgavam que era lixo…
Em 1996, eu, Diana Baptista (com P), com 15 anos de idade e o sorriso dos inocentes, não imaginava que havia pessoas que morriam na mais completa solidão. Aliás, não sabia o significado emocional da palavra solidão.
Hoje, em 2009, eu, Diana Baptista (ainda com o P dos antigos), com 28 anos de idade e o sorriso despassarado dos que não querem crescer, sei que há pessoas que morrem na mais completa solidão. Umas talvez mesmo ao meu lado sem que eu faça nada para as ajudar. Nestes anos todos aprendi a voltar a cara à miséria, à dor, à doença e à solidão. Não é comigo. Se não vir, não existe. Já não tenho 15 anos mas por vezes ajo como se os tivesse. Mas, agora, com a falsa inocência dos tolos.

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

A penosa antecâmara da morte invitável...

"Mais de metade dos nascidos depois de 2000 nos países desenvolvidos poderá vir a atingir os 100 anos de idade. Para quê?"
Conclusão avançada pela Universidade de Odense, Dinamarca in NS 196

"...numa alucinação de vida, que me enchia o coração e que agora vejo perdida"

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

A ficha das ilusões continua ligada à tomada.

Aqui ou em qualquer lugar, por muito que mudem as religiões, os “salvadores” ou as “bíblias”, não muda nada. O Homem consegue estragar tudo o que é puro.
Acreditamos a vida inteira em ilusões. Começa com o Pai-Natal, os contos de Hans Christian-Andersen que povoam o imaginário infantil, continua com o JC, depois o Príncipe Encantado adulto - que não queremos acreditar que não existe durante uma vida inteira - e continua por aí fora com os santos, o céu (ou entrada no paraíso), a reencarnação e outros que tal.
Desilusão após desilusão a mente humana não permite que a ficha das ilusões se desligue da tomada. Acreditamos sempre. Por mais vezes que o coração caia aos pés e se parta em bocadinhos. Acreditamos. Passamos por cima do desgosto e partimos para uma nova derrocada. Acreditamos. Sem mágoas ou entraves à entrada de novos sonhos no imaginário. Acreditamos… Talvez porque o sol continue a acordar, todas as manhãs, não importa o que tenta acontecido na noite anterior, mesmo depois de ter mergulhado fundo no mar, aos olhos do Homem.

Devia ter comprado todos as “liberdades” destes pássaros e - talvez - ter boa sorte e felicidade para sempre!... Nunca se sabe...

Terça-feira, Outubro 13, 2009

Segundo a lenda, sem jamais baixar o arco.

Apesar do seu voto de castidade, tendo-se ela apaixonado perdidamente por Orion, e dispondo-se a consorciá-lo, o seu enciumado irmão Apolo impediu o enlace mediante uma grande perfídia: estavam numa praia quando a desafiou a atingir com a sua flecha um ponto negro que indicava a tona da água, e que mal se distinguia devido à grande distância. Ela, toda vaidosa e sempre disponível para um desafio sem medir as consequências, prontamente retesou o arco e atingiu o alvo, que logo desapareceu no abismo no mar, fazendo-se substituir por espumas ensanguentadas. Era Orion que ali nadava, fugindo de um imenso escorpião criado por Apolo para o perseguir. Ao saber do desastre, cheia de desespero, conseguiu, por intermédio do seu pai, que a vítima e o escorpião fossem transformados numa constelação. Quando a de Órion se põe, a de escorpião nasce. Sempre em perseguição, mas sem nunca se alcançarem.
Como a luz prateada da lua, Artémis percorre todos os recantos dos prados, montes e vales, como uma infatigável caçadora, sem, nunca - surja que contrariedade surgir - baixar o arco.

"Um assessor de imprensa...

...recebe quatro ou cinco vezes mais do que um jornalista”, ouviu-se ontem, a alto e bom som, no Prós e Contras. Estive quase para ligar para lá para me informarem onde. Em Portugal?!...
Uma pequena nota: Verdade seja dita, quem vende a alma ao diabo, devia era pagar para trabalhar.

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

Blasfémias sentimentais desprovidas de sentido.

Já não sei escrever. Não me apetece escrever! – Grito, muda. As palavras ficaram pelo caminho e parecem-me pequenas, ou grandes, ou desprovidas de sentido, ou com sentido a mais - não sei, não me interessa -, sinto-me revoltada comigo própria. Gastei as palavras. Já não valem nada. Já não gosto delas, nem as quero. Já não servem.
Não me apetece escrever! – Grito, muda. E rola uma lágrima perdida nesta “casa de paredes caídas”.
Minto.
Hoje sonhei que me tinha despedido. Ia morar para o Brasil. No sonho estava a arrumar as gavetas da minha secretária. Ia embora. E sentia um aperto tão grande no coração: lá, não tenho amigos, pensava. Não tenho ninguém. Vou ficar sozinha… - Sempre este medo, desde que me conheço, de estar comigo mesma. Almoço muitas vezes sozinha, vou para a praia sozinha, vou lanchar sozinha, vou ver o local em que o rio entra no mar sozinha. Aparentemente sei estar comigo. Minto. Não sei. Tenho tanto medo de não saber, que me obrigo a estar.
Vou escrever futilidades, que é para isso que me pagam. Não para divagar sobre sentimentalidades medíocres que não interessam a ninguém. Vou gastar um pouco mais as palavras. Que valem cada vez menos.

Hoje a manhã acordou mais cinzenta… E o meu sorriso menos brilhante. Sem mais porquês, escrevi todas estas blasfémias sentimentais desprovidas de sentido, confusas, amontoadas... Para me esconder de mim mesma, nesta "praia deserta dos dias que passam onde guardo um sonho que nunca chegou", como diz a música dos Toranja.

Sexta-feira, Outubro 09, 2009

Vida de artista...

Fizeram-nos acreditar que...

...cada um de nós é a metade de uma laranja e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não nos contaram que já nascemos inteiros e que ninguém na nossa vida merece carregar às costas a responsabilidade de completar o que nos falta: nós crescemos através de nós próprios. Se estivermos em boa companhia é só mais agradável.

Quinta-feira, Outubro 08, 2009

Quando a fortuna nos dispensa do trabalho...

a natureza sobrecarrega-nos de tempo.
Antoine Rivarol
Queixamo-nos uma vida inteira do que nos aprisiona mas sem esta regulação social que nos obriga ao metro quadrado em que me encontro diariamente 8 horas por dia, talvez o tempo fosse demasiado extenso para conviver comigo própria. Ou não. Mas talvez o vá saber mais breve do que alguma vez imaginei.
Por outro lado, por vezes certas palavras proferidas ao acaso em situações efémeras subitamente passam a fazer sentido: “Cuidado com o que desejas, pois podes obtê-lo”. Desejo muito, sem pensar: “Quero sol todos os dias. Quero liberdade. Quero paixão. Quero viajar. Quero paz. Harmonia. Alegria. Gargalhadas sem fim.”
E se a chuva não viesse nunca mais? E se a liberdade fosse tão grande que abolisse os laços, a segurança? E a paixão tão avassaladora que consumisse todo o meu corpo e alma? As viagens, essas, tantas que não existiriam lugares desconhecidos, para descobrir, com os quais sonhar? A paz tornar-se-ia inércia. A harmonia em ausência de emoção. E as gargalhadas desprovidas de sentido ou sentimento.
“Cuidado…”. Pois o meu desejo pode-se tornar realidade mudando todo o sentido de diversos seres inocentes que me rodeiam. Apenas através da força do meu pensamento. Do meu pequeno mundo que pode mudar todo o rumo de tantos outros pequenos mundos... E, como castigo, por essa ousadia, tempo infinito que se torna em tal carga volto a desejar o oposto sem pensar, num vai e vem de descuidos que se reflectem neste caos que um pequeno queixume, desejo ou pensamento se pode tornar.