Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009

Está quase!!!!


Weeeeee! :-D

Sexta-feira, Fevereiro 20, 2009

Toma lá que já levaste com um sapato!

"Quando olhava para Bush com aquele sorriso - como se o viesse dizer adeus ao Iraque - sentia o sangue de um milhão de mártires a correr debaixo dos meus pés", disse Al-Zaidi. "Nesse momento pensei: este é o homem que matou a nossa nação."

Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009

Licença para matar...

... ou vida humana, morte digna?
Existem apena dois tipos de seres humanos: os que estão em sofrimento e os que não estão em sofrimento. Normalmente os segundos decidem o destino dos primeiros...
De um lado estão os recém-nascidos com grave deficiências, os idosos, as pessoas em coma prolongada, os doentes mentais, os doentes crónicos e os tetraplégicos. Do outro, os decisores: São os médicos, os familiares, os amigos, os politicos, os padres, a freiras e os membros anónimos da sociedade.
Pertenço ao segundo grupo. Sou membro anónimo da sociedade. Sou saudável e não tenho nenhum familiar, conhecido ou amigo em nenhum estado dos descritos como pertencentes ao primeiro grupo. Á minoria. Sou a maioria. Para já.
Nunca estive doente, nem em coma, nem com dores, nem com nada de nada que afecte a minha vida simples e comum. Nunca entrei num hospital, nunca fui operada, nunca me diagnosticaram nada de mal. Vivo rodeada de pessoas mais ou menos saudáveis que fazem vidas normais, rotineiras e que têm pernas, braços, dedos, tronco e cabeça.
Como posso então, sendo eu tão saudável, dizer que não a alguém preso a uma cama que me pedisse: "Ajuda-me a morrer!". Que moral tenho eu para dizer: "Não!". Para ir embora e ignorar a suplica?! Para continuar na minha vidinha e olhar nos olhos de alguém que nada pode contra si, mas que implora aos decisores, aos que podem?! Não posso. Não posso avaliar, nem decidir. Não conheço, por isso não posso.
Licença para matar? Sim! Licença para ajudar quem já não pode mais a ter uma morte digna e amparada!
Podem vir dizer-me que isto é nazismo. Podem-me chamar todos os nomes. Mas não tenho o direito - nem ninguém tem - de julgar o desespero do outro. De prolongar uma vida artificialmente, ou proibir alguém que nem os braços mexe do direito à escolha. Não tenho o direito de proibir uma pessoa a fazer o que quiser com o seu próprio corpo e alma. É seu. De mais ninguém. É desumano! Claro que tudo tem dois lados e que pode trazer graves consequências como "ajudar" a morrer velhinhos só para não os familiares não os terem que aturar. Mas será que isso já não acontece?... É como o aborto. Como a legalização do aborto: acham mesmo que há mais pessoas a fazê-lo só porque é legal? Contem-me histórias...
Acredito na liberdade. E não sei se algum dia estarei presa a uma cama ou com alzheimer ou doente terminal. Como não sei.... Espero se infelizmente passar por isso, ter direito à escolha. E a uma morte digna, como ser humano digno que sou.
Este assunto enerva-me solenemente. Lembro-me de ter uns 9 anos e ver na televisão, ou nem sei bem onde, a história de Ramón Sampedro. Lembro-me de questionar os meus pais, de eles me explicarem em palavras para criança e ficar chocada. Um dos primeiros choques da minha vida: Se o homem estava preso a uma cama há prái 20 anos (nem sei bem) e queria morrer, podia-se proibir de ele prórpio decidir a sua PRÓPRIA vida??!! Sampedro, após lhe terem dito que era muito útil para a sociedade e que como tal devia viver, organizou a sua morte - com a ajuda de amigos - e partiu em paz.

Os meus medos egócentricos.

Tenho medo de...
... enlouquecer ou ficar totalmente sã - Normalmente com a idade ou se fica louco, desmiolado, xexé, aluado, com Alzheimer e outros que tais ou então totalmente sem graça, racional, insensível, normal. Tenho muito medo de perder as minhas capacidades mentais e emocionais. Ou as ver diminuídas. Ou sentir que os mais novos me ultrapassam, que o meu raciocínio é diminuto ou que sou totalmente genial mas profundamente doida varrida. Tenho medo de começar a falar sozinha ou não falar nada de nada. Enfim… Tenho medo do que não controlo;
... não saber envelhecer – Até aos 20 anos estamos em fase crescente. As mulheres principalmente, os homens ainda são umas crianças. Depois dos vinte, é o declínio. E como são pelos menos uns 40 anos, conseguimos envelhecer mais do que o que crescemos. Ou seja, trocado por miúdos, tenho medo de olhar para o espelho e não aceitar as rugas, os cabelos brancos, as varizes, as mamas até ao umbigo, as pernas retorcidas, os braços lânguidos, a pele macilenta. Tenho medo de olhar para uma rua de cinco metros, a subir, e pensar: “umas duas horitas e chego lá a cima!”;
... nunca deixar de ter medo de morrer – Neste momento nem gosto de pensar que vou morrer. Mas tenho medo que esse medo nunca passe e que continue sem aceitar calmamente que infelizmente morremos todos um dia. Também tenho muito medo que morram todos e eu fique só… Mas esse é o medo seguinte;
... da solidão;
.. do tempo (ou da falta dele) - Tenho medo de não ter tempo para fazer algo que faça com que eu fique para a história. Sempre disse que um dia ia ter um museu: O Museu Diana Baptista. Que ia ter uma avenida com o meu nome, livros publicados e que nunca morreria. O tempo passa e cada vez tenho mais medo de não ter tempo para sequer ter um Beco Sem Saída Diana Baptista.
Trocado por miúdos, não quero ser chata, velha nem feia. Não quero ficar sozinha, nem que os que eu amo vão embora. Quero que descubram o elixir da vida eterna. E quero ter um Museu com o meu nome. Fácil, não?

Os assuntos sérios são os únicos que dão para rir. :-)


Eugenismo ou os cientistas elouquecidos

"Nós os deficientes só somos pessoas com direitos se temos mais de 9 meses de vida – por hora isso livra-nos a alguns de uma morte selectiva. Os que têm só horas, dias, semanas ou uns poucos meses são seleccionados e mortos por cientistas enlouquecidos. "

Descobri ontem uma palavra nova, o eugenismo. Descobri que na Holanda há uma lei que classifica as deficiências profundas em graus:

- Grau 3 é feita a Eutanásia com o consentimento dos pais;
- Grau 2 é feita a Eutanásia com comunicado aos pais;
- Grau 1 é feita a Eutanásia.

Por cá, andamos a comemorar o fim da segunda Guerra Mundial e do Holocausto. Andamos a gritar para que os gays possam casar e adoptar. Para que mães possam abortar sem penalizações. Por causa do testamento vital.E, mesmo aqui ao lado, continua o holocausto. O genocídio da população que pode empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações, física ou mentalmente.
Não tenho ao certo uma opinião. Não vi as deficiências. Não sei se com Grau 1, 2 ou 3, este ser humano tem consciência, ou razão. Não sei se nos temos que proteger, como raça mundial, para podermos evoluir o melhor possível e manter as qualidades que nos distinguem das outras espécies. Não sei… Mas cheguei a uma conclusão. Existe televisão, existe toda uma panóplia de comunicações, vivemos na era digital, global e o mundo do outro lado do mundo está cada vez mais próximo. Mesmo assim, existem tantas circunstâncias que desconhecemos, que são abafadas, esbatidas, dissimuladas da opinião pública…
Sinto-me dividida. Acho que é a primeira vez que não tenho opinião formada.
Sou pela liberdade de escolha. Acho que deve existir uma moral-social não opressiva, nem abrasiva. Acho que cada um dos nossos actos individuais que digam respeito apenas ao próprio e que não prejudiquem outros, não deve punido, deve ser, sim, orientado. Sou a favor da LIBERALIZAÇÃO da Eutanásia, aborto, casamento gay, adopção (seguindo as regras rígidas impostas aos casais heterossexuais). Quanto a esta lei holandesa… Não sei. De um lado a moral e a razão debatem-se. Como o anjinho e o diabinho. Não consigo formar uma opinião.
Todas estas questões morais são muito difíceis mas, infelizmente, incontornáveis.

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009

L´excessive

Dizem que sou muito fácil de conhecer. Que vario entre duas almas opostas que se fundem, desconexas, complexas, incoerentes e difusas. Nunca impávida nem serena, sou alegria, sou tristeza, emotiva, insensível, confusa, coerente, implacável, maleável, pragmática, informal. Mas nunca indiferente.
Pela oposição, sou muito fácil de conhecer - afinal só existem dois opostos e eu nunca estou no meio.
Fácil de conhecer mas NUNCA fácil de prever.
Je n’ai pas d’excuse,
C’est inexplicable,
Même inexorable,
C’est pas pour l’extase,
c’est que l’existence,
Sans un peu d’extrême,
est inacceptable,
Je suis excessive,
J’aime quand ça désaxe,
Quand tout accélère,
Moi je reste relaxe.
- Carla Bruni -

O tempo (pirraça)...

...à espera do futuro é tão longo... O tempo do presente tão rápido. E o tempo do passado, tão distante!

Passa o tempo sem demora
Quando não penso nas horas
Os ponteiros do relógio
Fazem voltas se não olho
Mas quando acendo o fogo
Para fazer um café
Vejo o tempo parar
Pra água ferver
Parece nunca acabar,
espera sem fim
06:04; 06:05; 06:05; 06:05
Esperando o apito da chaleira
Vejo o tempo parar
Parar
O tempo pirraça
Vanessa da Matta - Pirraça

Terça-feira, Fevereiro 17, 2009

Sem enquanto!

Se um homem escreve bem só quando está bêbado, dir-lhe-ei: embebede-se. E se ele me disser que o seu fígado sofre com isso respondo: o que é o seu fígado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive, e os poemas que escrever vivem sem enquanto.

Bernardo Soares

A dependência emocional...

... é uma tirania que constrói a nossa prisão interior.

O segredo?

Mudar! Aceitar a vida como ela e viver a liberdade do amor-próprio! :-)

P.S. Odeio estas frases e conjecturas de auto-ajuda cujos “hoje-estou-triste, hoje-estou-menos-triste, hoje-estou-tristíssimo” gostam de citar para se tentarem convencer a si próprios que podem um dia ver o sol raiar. Odeio. Mas hoje dou-me o direito de ser brega e escrever umas frasezinhas do género! Posso?! Pode ser que algum deles até as cite, quem sabe... :-)

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

Recebi um gelado! :-D


Maryposa (http://tempodasborboletas.blogspot.com/) obrigada pelo Prémio Dardos!! Sinto-me como uma menina que recebeu um gelado num dia de verão! Quando construírem o Museu Diana Baptista vais ter uma sala só para ti. Pronto, um salão e não se fala mais nisso. :-)
O Prémio Dardos reconhece o valor de cada blogger ao transmitir valores culturais, éticos, literários ou pessoais e que de alguma forma demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto naquilo que escrevem. Por outro lado, esta é também uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Quem recebe o Prémio Dardos e o aceita deve seguir algumas regras:
1 - Exibir a imagem;
2 - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3 - Escolher quinze outros blogs aos quais entregar o Prémio Dardos.

Não tenho QUINZE blogs para recomendar mas cá vão alguns...
- http://tempodasborboletas.blogspot.com/ (porque merece mesmo o prémio)
- http://murcon.blosgpot.com/ (porque é o meu prémio na blogosfera)
- http://floreca.blogs.sapo.pt/ (porque é o primeiro blog que conheci e que inexplicavelmente ainda espreito de vez em quando)
- http://bugboleta.blogspot.com/ (porque há muito tempo que não ia lá mas devia)
- http://provaoral.blogspot.com/ (porque sim. P.S. Este vale?)


Amor é (em) Paz


Eu amei
E amei, ai de mim, muito mais do que devia amar
E chorei
Ao sentir que iria sofrer e me desesperar

Foi então
Que da minha infinita tristeza aconteceu você
Encontrei
Em você a razão de viver e de amar em paz
E não sofrer mais
Nunca mais
Porque o amor é a coisa mais triste quando se desfaz

O amor é a coisa mais triste quando se desfaz


Tom Jobim / Vinicius de Moraes



São os poemas, os filmes, as histórias, os contos, as peças de teatro, as letras das musicas, os ditados e os contados. Foram a Inês e o Pedro, Orfeu e Eurídice, Romeu e Julieta e até D. Sebastião, que nunca chegou a voltar. É a saudade, a nostálgia, a mágoa, a esperança e a dor.

São os amores descritos e ensinados. Trágicos. Cómicos. Dolorosos. Marcados pelas lágrimas da princesa que fica, enquanto o seu principe vai para a guerra e não regressa mais. Fazem acreditar as pobres meninas que amor e sofrimento andam de mãos dadas. Que é preciso deitar muitas lágrimas para amar.

E é preciso vir um rapaz, que pouco vivou mas se acha vivido, dizer à menina (que acreditava nessas balelas impingidas pelas editoras cinematográficas e pelas livreiras que não olham a meios para vender sentimentos):

- Basta! Amor é paz.

Domingo, Fevereiro 08, 2009

Feliz!!! :-)

Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa

Porque tudo é um milagre e os meus sonhos não têm fim... Sou feliz, com aquele riso dos parvos - ou dos eternos apaixonados. Não por um homem, por um objecto ou por outro que tal mas, pela simplicidade, pelo amor, pelo meu Homem-Livro, pelo desejo de crescer, por querer aprender e por saber que hoje é já outro dia e que eu estou cá, para o viver em pleno. :-)

Sábado, Fevereiro 07, 2009

Quando eu era pequenina...

... há muito, muito tempo, algures na década de 80, brincava aos casamentos, no recreio da escola. Comia umas flores que não sei o nome- às escondidas, com as outras - e recebia um chocolate Táxi se me portasse bem, ao almoço.
No Natal, pedia sempre muitas Barbies mas também outros brinquedos: a casa da Barbie, a piscina da Barbie, o cabeleireiro da Barbie, o cão da Barbie, a roupa da Barbie,... Deixava presentes para o Pai-Natal, embrulhadas em folhinhas queridas (tinha uma colecção enorme e trocava as repetidas com as minhas amigas).
No recreio jogava futebol com os rapazes. Todos os dias caia na lama, que se acumulava junto à baliza, e tinha que trocar de roupa nos perdidos-e-achados. Umas vezes jogava ao Bate-Pé, escondida no meio dos pavilhões.
À noite devorava livros de aventuras ou de contos e fábulas. Os Cinco eram os meus preferidos e cheguei a criar um clube para desvendar mistérios, com uma amiga. Queria que o meu pai me construísse uma cabana, que seria a sede do clube, num monte perto de casa dos meus tios. Lia pela madrugada - ou pela noite, apenas, porque deitava-me mesmo muito cedo - com uma lanterna, por baixo dos cobertores, depois do meu pai apagar a luz perentóriamente.
Tinha aulas de ballet, piano, inglês, francês, ténis, pintura, judo e ainda pertencia aos escuteiros. Uma menina inteligente deve saber tocar piano, falar francês e dançar ballet. Os escuteiros era um pouco à revelia, mas fui criada numa família em que a liberdade de escolha era fundamental. Aliás, por causa dessa liberdade, escolhia, desde que me lembro de ser gente, a roupa que usava todos os dias. Isso dava muitas vezes azo a sair de casa vestida de uma forma bizarra.
Na escola, os da turma A, chamavam-me Peixe. "A Peixe" para ser mais precisa. Esse apelido irritava-me solenemente e ficava corada como um pimento (ironia do destino, dirão alguns, que me conhecem pessoalmente e sabem do que falo).
Fingia sempre que me esquecia das sapatilhas ou das calças para não fazer Educação Física. Acho que consegui passar quase um ano inteiro sem fazer essas aulas que considerava ridículas. A desenho era das piores e nunca conseguia fazer nenhum trabalho sem o sujar nem sei com o quê. Uma vez levei uma pintura da minha mãe e disse que era minha. Não colou.
Chamávamos Gunas a uns rapazes do bairro e quando queria ficar a namorar fingia que perdia a camioneta da escola que me levava a casa. Era apaixonada pelo rapaz mais baixinho da nossa turma. Eu e mais 3. Ficamos as melhores amigas. Mas só eu namorei durante uma semana INTEIRA com ele. Não sabia dar beijos, mas eu achava que o problema era meu.
As mesas, até à 4ª classe, eram de madeira, com um buraco redondo para a tinta, tampa e um espaço para pousar a pena. Felizmente já existiam canetas! Mas fazíamos os trabalhos numa lousa preta, com giz branco. Se déssemos erros a madame (nome que chamávamos à professora) puxava-nos as bochechas. Aprendi a escrever num caderno com linhas onde desenhava as letras. O h era dos mais difíceis.
Quando íamos de férias, saíamos de casa de madrugada, em direcção ao Algarve. Nove horas de viagem sem ar condicionado. O meus pais tinham um fiat 127 castanho que às vezes avariava pelo caminho. Ficava três semanas no Algarve. Não era muito tempo. Era uma eternidade.
Aos domingos, passeávamos de carro até Entre-Os-Rios ou até à Figueira da Foz. Um dia disse que não queria ir. Fiquei em casa sozinha. Nos anos, pedi uma aparelhagem com CD. Comprei um Swatch verde, daqueles com o mostrador gigante, com o dinheiro da mesada, que juntei durante um ano. Escondi o meu diário para ninguém o ler. Deixei de comprar as revistas todas em que saía o MJ para comprar a Ragazza. Passava horas ao telefone. Comecei a ter a chave de casa e um passe para o autocarro. Usava perfume e carteira e tinha orgulho em que se notasse que usava sutiã. "Curtia" com os rapazes nas festas de anos, à tarde, sem pais. Combinávamos ir ao cinema todos juntos. Comi pela primeira vez Mac Donalds e fui a um Shopping. Era fã do Michael Jackson e o meu quarto era decorado com posters do cantor. Antes de ir de férias despedia-me pessoalmente de cada poster com um beijo. Caso o poster tivesse o MJ em ambos os lados, recebia dois beijos. Ouvia música em alto som até ás 22h, altura em que o meu pai entrava no meu quarto, com um sorriso aliviado, e dizia: "Está na hora...". Michael Jackson mas não só. Ouvia Nirvana, Bon Jovi, Guns´n´Roses e outros da altura. Gravava video clips do meu ídolo, em cassetes VHS, e passava tardes inteiras a vê-los. Também gravava as Marés Vivas. Vestia umas calças que agora se chamam leggins e sapatilhas All Star. Tinha de todas as cores e algumas com bandeiras de países. Depois vieram as City Jeans e, mais tarde, as saias às pregas com meias acima do joelho. Eram os anos 90. E eu já era uma mulherzinha.

Porque é que fodemos o amor?


Porque não resistimos. É do mal que nos faz. Parece estar mesmo a pedir. De resto, ninguém suporta viver um amor que não esteja pelo menos parcialmente fodido. Tem que haver escombros. Tem de haver esperança. Tem de haver progresso para pior e desejo de regresso a um tempo mais feliz. Um amor só um bocado fodido pode ser a coisa mais bonita deste mundo.

Miguel Esteves Cardoso -O amor é fodido


Tinha praí uns 15 anos quando estive a ler o Amor é Fodido. "Estar a ler". Ou "o que estás a ler?". Foram sempre frases e questões que me intrigaram. Não estou a ler nada. Li ontem. Vou ler hoje. Nunca consegui deixar a meio um livro e ir lendo.... Estar a ler um livro! "Que filme estás a ver?". Já agora!

Mas voltando à vaca fria, aos 15 anos estive a ler o Amor é Fodido. Comecei a ler numa manhã, tive que sair e levei-o comigo. Ia no autocarro, quando me disseram: "Um livro com esse título... Não o poderias encapar? Fica mal uma menina andar a ler livros com essas asneiras escritas na capa".

Durante uns dias, depois de já ter lido o livro, andava com ele para toda a parte. Já aos 15 anos acreditava que as palavras são todas iguais. Umas mais fortes, outras menos, umas suaves, outras duras. Não acredito em palavras proibidas. Os sentimentos já são suficientemente difíceis de definir, quanto mais se houvessem algumas palavras que fossem inoportunas! Carregava o livro como se de um estandarte se tratasse, de baixo do braço, capa virada para fora. Acho que foi a minha primeira manifestação social de imposição do que julgava certo. Aos 15 anos gostava de chocar. Se aquele título tinha chamado a atenção, então andava com ele por toda a parte. Ainda era uma miúda, mas considerava-me muito crescida e, como tal, julgava saber que não há melhor palavra no mundo para descrever o amor do que FODIDO. Hoje, passado mais de uma década, sei que o amor não é fodido. Nós é que o fodemos. Como disse o MEC "Porque é que fodemos o amor? Porque não resistimos".

Foi o único livro que estive a ler durante toda a minha vida.

Polindo as unhas.


Eu queria ser mulher pra me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.


Eu queria ser mulher pra não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro -
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer «potins» - muito entretida.


Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar -
Eu queria ser mulher pra que me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se podem desculpar.


Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos - mesmo ao predilecto -
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...


Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher pra me poder recusar...


Ah, que te esquecesses sempre das horas
Polindo as unhas -
A impaciente das morbidezas louras
Enquanto ao espelho te compunhas...

(...)

Mário de Sá-Carneiro

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009

Será isto a liberdade?


Tudo o que faço, faço por nada; dir-se-ia que me roubam as consequências dos meus actos, tudo se passa como se eu pudesse sempre voltar atrás. Não sei o que não daria para cometer um acto irremediável.


Jean Paul Sartre

A mulher não nasce mulher...


...torna-se mulher.


Simone Du Beauvoir.

"Le couple heureux...

... qui se reconnaît dans l'amour, défie l'univers et le temps; il se suffit, il réalise l'absolut."

Dois seres que se amam profundamente não precisam de outras justificações para amar a vida. Bastam-se, não precisam de nada nem de ninguém. O amor autêntico, que pode ser preservado apesar da passagem dos anos, dá à vida todo o sentido, toda a sua razão de ser. Não é a única forma de dar razão à existência (o compromisso social, o sentimento de fazer progredir o mundo em que vivemos, a amizade, etc., também podem construir este sentido), mas pode ser a mais bela razão de viver que existe.
O que me entristece é que o casal permaneça unido pelo hábito, pela pressão social... Logo que dois seres se sentem ligados não tanto por se amarem, o que era libertação e plenitude transforma-se em angústia e prisão. Sartre e eu nunca vivemos juntos e sempre considerámos ser livres de correntes que nos prendessem um ao outro. Se permanecemos unidos toda a vida, foi porque nos amámos profundamente e porque, livremente, sempre tivemos vontade de estar um com o outro. E isso é a coisa mais bela que pode acontecer a um ser humano. O amor dá força e coragem para enfrentar o mundo e a vida, a dois e não a um só. É muito!

Simone du Beauvoir (numa carta a uma amiga sobre a sua relação com Sartre)

Nenhum homem é cruel...


Quando o rico ti­ra um pertence ao pobre (por exemplo, um príncipe que tira a amante ao plebeu), então gera-se um erro no pobre; este acha que aquele tem de ser absoluta­mente infame, para lhe tirar o pouco que ele tem. Mas aquele não sente de modo algum tão profunda­mente o valor de um único pertence, porque está ha­bituado a ter muitos: portanto, não se pode trans­por para o espírito do pobre e não comete tal uma injustiça tão grande como este julga. Ambos têm um do outro uma concepção errada. (...)

Causa e efeito estão, em todos estes casos, rodeados por grupos de sentimentos e de pensamen­tos diferentes; enquanto que, involuntariamente, se pressupõe que réu e queixoso pensam e sentem da mesma maneira e, em conformidade com esse pres­suposto, se mede a culpa de um pelo sofrimento do outro.


Friedrich Nietzsche

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

A doença da mente dividida.

Numa sala branca vazia. Está sentada, sozinha. Na penumbra, tantas vozes! Ignora-as. Vira-lhe a cara. Esconde o medo. E a vontade de responder. Chama-na. Vira-lhes as costas. Às vozes. Segue em frente em passo incerto. Está dividida, mas desta vez, e talvez só desta mesmo, entra no consultório. Fecha a porta atrás de si. E senta-se...

Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

A "vidinha" é uma convivência assassina.



Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.O que quero é fazer o elogio do amor puro.


Parece-me que já ninguém se apaixonade verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão alimesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.


Hoje em dia aspessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passívelde ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia serdesmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.


Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amorcego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, sãouma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?O amor é uma coisa, a vida é outra.


O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nascostas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea porsopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amorfechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor éamor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como nãopode. Tanto faz. É uma questão de azar.O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio,não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não sepercebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe.


Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amorque se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se podeceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.




Elogio ao Amor - Miguel Esteves Cardoso (Expresso)

Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009

Tu és o meu "Homem-Livro"

Estou além do sono, num sonho de papel, fio de ópio, sombra chinesa tatuada no céu.
Hoje não me apetece ser do contra, uma enfant terrible.
Quero apenas os novos códigos, quero apenas entrar e participar.
Cruzar-me num sonho que seja possivel para ambos.

És o meu Anjo da Guarda e eu dou-te trabalho...
Tu és o meu "Homem-Livro", o meu agasalho:
que lê para mim todas as noites, que me levanta sempre que caio.
Como eu gostava de retribuir. Como eu gostava de aprender a pedir.
Quando as palavras não dizem o que somos.

A cidade está submersa numa manhã chuvosa.
Pântanos e dinossauros tomam de assalto as avenidas.
A menina tem insónias e só às vezes dorme.
Desaparece e acorda com fome e acorda com fome.
Esta é a minha nova dor. Diz-lhe olá, não a faças esperar.

Quando as palavras não dizem o que somos.
Gastamos em tinta o que prometemos em sonhos.
Quando as palavras não dizem o que somos.

Oh! Meu Anjo da Guarda, eu sei que te dou trabalho.
Eu e tu somos iguais... eu queria tanto fazer-te feliz...
Não esperes que eu consiga mudar da noite para o dia.

Mesa - Quando as palavras