... há muito, muito tempo, algures na década de 80, brincava aos casamentos, no recreio da escola. Comia umas flores que não sei o nome- às escondidas, com as outras - e recebia um chocolate Táxi se me portasse bem, ao almoço.
No Natal, pedia sempre muitas Barbies mas também outros brinquedos: a casa da Barbie, a piscina da Barbie, o cabeleireiro da Barbie, o cão da Barbie, a roupa da Barbie,... Deixava presentes para o Pai-Natal, embrulhadas em folhinhas queridas (tinha uma colecção enorme e trocava as repetidas com as minhas amigas).
No recreio jogava futebol com os rapazes. Todos os dias caia na lama, que se acumulava junto à baliza, e tinha que trocar de roupa nos perdidos-e-achados. Umas vezes jogava ao Bate-Pé, escondida no meio dos pavilhões.
À noite devorava livros de aventuras ou de contos e fábulas. Os Cinco eram os meus preferidos e cheguei a criar um clube para desvendar mistérios, com uma amiga. Queria que o meu pai me construísse uma cabana, que seria a sede do clube, num monte perto de casa dos meus tios. Lia pela madrugada - ou pela noite, apenas, porque deitava-me mesmo muito cedo - com uma lanterna, por baixo dos cobertores, depois do meu pai apagar a luz perentóriamente.
Tinha aulas de ballet, piano, inglês, francês, ténis, pintura, judo e ainda pertencia aos escuteiros. Uma menina inteligente deve saber tocar piano, falar francês e dançar ballet. Os escuteiros era um pouco à revelia, mas fui criada numa família em que a liberdade de escolha era fundamental. Aliás, por causa dessa liberdade, escolhia, desde que me lembro de ser gente, a roupa que usava todos os dias. Isso dava muitas vezes azo a sair de casa vestida de uma forma bizarra.
Na escola, os da turma A, chamavam-me Peixe. "A Peixe" para ser mais precisa. Esse apelido irritava-me solenemente e ficava corada como um pimento (ironia do destino, dirão alguns, que me conhecem pessoalmente e sabem do que falo).
Fingia sempre que me esquecia das sapatilhas ou das calças para não fazer Educação Física. Acho que consegui passar quase um ano inteiro sem fazer essas aulas que considerava ridículas. A desenho era das piores e nunca conseguia fazer nenhum trabalho sem o sujar nem sei com o quê. Uma vez levei uma pintura da minha mãe e disse que era minha. Não colou.
Chamávamos Gunas a uns rapazes do bairro e quando queria ficar a namorar fingia que perdia a camioneta da escola que me levava a casa. Era apaixonada pelo rapaz mais baixinho da nossa turma. Eu e mais 3. Ficamos as melhores amigas. Mas só eu namorei durante uma semana INTEIRA com ele. Não sabia dar beijos, mas eu achava que o problema era meu.
As mesas, até à 4ª classe, eram de madeira, com um buraco redondo para a tinta, tampa e um espaço para pousar a pena. Felizmente já existiam canetas! Mas fazíamos os trabalhos numa lousa preta, com giz branco. Se déssemos erros a madame (nome que chamávamos à professora) puxava-nos as bochechas. Aprendi a escrever num caderno com linhas onde desenhava as letras. O h era dos mais difíceis.
Quando íamos de férias, saíamos de casa de madrugada, em direcção ao Algarve. Nove horas de viagem sem ar condicionado. O meus pais tinham um fiat 127 castanho que às vezes avariava pelo caminho. Ficava três semanas no Algarve. Não era muito tempo. Era uma eternidade.
Aos domingos, passeávamos de carro até Entre-Os-Rios ou até à Figueira da Foz. Um dia disse que não queria ir. Fiquei em casa sozinha. Nos anos, pedi uma aparelhagem com CD. Comprei um Swatch verde, daqueles com o mostrador gigante, com o dinheiro da mesada, que juntei durante um ano. Escondi o meu diário para ninguém o ler. Deixei de comprar as revistas todas em que saía o MJ para comprar a Ragazza. Passava horas ao telefone. Comecei a ter a chave de casa e um passe para o autocarro. Usava perfume e carteira e tinha orgulho em que se notasse que usava sutiã. "Curtia" com os rapazes nas festas de anos, à tarde, sem pais. Combinávamos ir ao cinema todos juntos. Comi pela primeira vez Mac Donalds e fui a um Shopping. Era fã do Michael Jackson e o meu quarto era decorado com posters do cantor. Antes de ir de férias despedia-me pessoalmente de cada poster com um beijo. Caso o poster tivesse o MJ em ambos os lados, recebia dois beijos. Ouvia música em alto som até ás 22h, altura em que o meu pai entrava no meu quarto, com um sorriso aliviado, e dizia: "Está na hora...". Michael Jackson mas não só. Ouvia Nirvana, Bon Jovi, Guns´n´Roses e outros da altura. Gravava video clips do meu ídolo, em cassetes VHS, e passava tardes inteiras a vê-los. Também gravava as Marés Vivas. Vestia umas calças que agora se chamam leggins e sapatilhas All Star. Tinha de todas as cores e algumas com bandeiras de países. Depois vieram as City Jeans e, mais tarde, as saias às pregas com meias acima do joelho. Eram os anos 90. E eu já era uma mulherzinha.