
Todos os dias deparo-me com situações de conflito de gerações que observo, alheia aos meus próprios conflitos, com o espírito crítico dos que não querem ver. Todos os dias vejo tantas Vós-velhas, que um dia foram novas mas já ninguém que é novo agora as viu ou ouviu falar.
Todos os dias vejo adolescentes envergonhadas da surdez da avó de 80 anos que fala aos gritos para se fazer ouvir. Da mãe de 70 anos que conta, reconta e torna a contar o troco porque já não tem a destreza mental de antes. Do avó que conduz a 20 km/hora porque já não tem reflexos e o tempo já não é o que era. Todos os dias vejo, no rosto de tantos velhos e novos, uma zanga interior contra o envelhecimento e a perda de capacidades que se manifesta num “oh Vó por amor de deus ande mais de pressa se não perdemos o metro!”. E lá vai a avó, de bengala, com as pernas curvas pelos anos-de-pé-a-cuidar-dos-meninos-depois-das-horas-a-bulir-para-trazer-pão-para-a-mesa-onde-o-avô-se-sentava-pronto-para-comer-sem-falta-todos-os-dias-áquela-hora, um passo a trás do outro como numa corrida em câmara lenta… Ela que andou horas a fio, quando era mais nova, com os filhos pela mão de trás para a frente para trás para a frente para trás, eles com as pernitas tortas a lembrar que ainda são bebés. Ela que agora fica para trás e ninguém compreende a solidão que vive. Ela que educou, ensinou, batalhou e protegeu, agora é simplesmente a vó-velha que não sabe nada (não sabe falar, vestir, pensar e nem sequer agora sabe andar) e parece, aos olhos dos netos e dos filhos, que nunca foi nova, mas sempre a vó-velha que nunca soube nada nem lhes ensinou tudo o que eles são hoje.
A Vó-Velha é a senhora que vai na rua com o saco, atrás do neto que reclama com ela e que olhamos e temos pena. Entramos no metro a pensar na Vó-Velha e quando chegamos a casa lá está a avó outra vez com a televisão aos berros a achar que o mau da novela é má pessoa.
- "Oh Vó por amor de deus! Ponha a televisão mais baixa e despache-se porque de caminho o jantar está pronto e eu já sei como a avó é - faz tudo a 1 à hora - por isso é melhor ir-se lavar já antes que fique tarde!".
Todos os dias vejo adolescentes envergonhadas da surdez da avó de 80 anos que fala aos gritos para se fazer ouvir. Da mãe de 70 anos que conta, reconta e torna a contar o troco porque já não tem a destreza mental de antes. Do avó que conduz a 20 km/hora porque já não tem reflexos e o tempo já não é o que era. Todos os dias vejo, no rosto de tantos velhos e novos, uma zanga interior contra o envelhecimento e a perda de capacidades que se manifesta num “oh Vó por amor de deus ande mais de pressa se não perdemos o metro!”. E lá vai a avó, de bengala, com as pernas curvas pelos anos-de-pé-a-cuidar-dos-meninos-depois-das-horas-a-bulir-para-trazer-pão-para-a-mesa-onde-o-avô-se-sentava-pronto-para-comer-sem-falta-todos-os-dias-áquela-hora, um passo a trás do outro como numa corrida em câmara lenta… Ela que andou horas a fio, quando era mais nova, com os filhos pela mão de trás para a frente para trás para a frente para trás, eles com as pernitas tortas a lembrar que ainda são bebés. Ela que agora fica para trás e ninguém compreende a solidão que vive. Ela que educou, ensinou, batalhou e protegeu, agora é simplesmente a vó-velha que não sabe nada (não sabe falar, vestir, pensar e nem sequer agora sabe andar) e parece, aos olhos dos netos e dos filhos, que nunca foi nova, mas sempre a vó-velha que nunca soube nada nem lhes ensinou tudo o que eles são hoje.
A Vó-Velha é a senhora que vai na rua com o saco, atrás do neto que reclama com ela e que olhamos e temos pena. Entramos no metro a pensar na Vó-Velha e quando chegamos a casa lá está a avó outra vez com a televisão aos berros a achar que o mau da novela é má pessoa.
- "Oh Vó por amor de deus! Ponha a televisão mais baixa e despache-se porque de caminho o jantar está pronto e eu já sei como a avó é - faz tudo a 1 à hora - por isso é melhor ir-se lavar já antes que fique tarde!".


