Sexta-feira, Outubro 16, 2009

Estávamos em 1996...


Com 15 anos, a inocência permite todos os sonhos desprovidos de condicionantes da razão. Nesta altura, lembro-me que estava a ler “O amor é fodido”, “Os filhos da droga”, os poemas da Espanca e que tentava encontrar desesperadamente “O Crime do Padre Amaro”, que me tinham proibido de ler - por não ser para a minha idade -, nas estantes lá de casa… O que teria escrito lá dentro? Qual o crime?... Nunca o cheguei a saber.
Foi o ano em que me apaixonei pela primeira vez. Ouvia o “Cidade by Night” pela noite dentro, escrevia poemas sentada na minha escrivaninha (será que alguém nascido após 1990 sabe o que é uma escrivaninha?!) de lágrima no olho e sonhava com o príncipe encantado. Não haviam telemóveis (haver haviam, mas eu não tinha e nem quase ninguém que conhecia possuía um). Acho que foi neste ano que tive o meu BIP amarelo. Era preciso telefonar para um número e ditar à operadora a mensagem… Sem dúvida que quem estava por trás devia-se rir o dia todo do que ouvia! Da minha parte, algumas eram indescritíveis. Este também foi o ano em que comecei a comprar às escondidas cigarros avulsos! Fumávamos atrás de um prédio e sentia-me mesmo muito grande. Não sabia travar mas achava que guardava o fumo tempo suficiente para ninguém se aperceber. Ia treinando, ao espelho, quando não estava ninguém em casa… Neste ano também comecei a sair à noite pela primeira vez. Para o Vicio do Álcool. Chegávamos à meia-noite – depois de uma sessão de maquilhagens e roupas em casa umas das outras (ia-mos muitas vezes vestidas de igual!) – e bebíamos Pissang Abom com laranja (curiosamente ultimamente voltei a esta bebida doce). Comprava a Ragazza e guias astrais na esperança de adivinhar o meu futuro (sentimental, claro está!).
As férias eram três meses inteiros passados na praia. De tal forma que até saturava… Lá para Agosto já só queria voltar às aulas! A única responsabilidade era não fazer asneiras nem me meter em nenhuma embrulhada. Nada mais. Ia às aulas – ou ia jogar cartas para o café ao lado do liceu, mais propriamente -, alguns professores chamavam-me “a turista” e tinha a mesa cheia de poemas escritos para a tal paixão – diga-se de passagem que tinha estado com ele umas 4 vezes e nada mais sabia do que o seu nome, mas imaginava perfeitamente o género de pessoa que deveria ser.
Era muito inocente. Mas achava que não! Que já era imensamente grande e que sabia tudo… Olhando para trás até dá vontade de rir. Mas não digo: "só queria ter aquela idade e saber o que sei hoje". Não! Pelo contrário, queria era nunca saber o que sei hoje! Ontem, por exemplo, ouvi no telejornal que uma imigrante em França esteve dois anos morta no seu apartamento sem que ninguém reparasse... As contas eram pagas, a tempo e horas, com aquele sistema de débito directo e, segundo os vizinhos, realmente havia um mau cheiro no prédio. Julgavam que era lixo…
Em 1996, eu, Diana Baptista (com P), com 15 anos de idade e o sorriso dos inocentes, não imaginava que havia pessoas que morriam na mais completa solidão. Aliás, não sabia o significado emocional da palavra solidão.
Hoje, em 2009, eu, Diana Baptista (ainda com o P dos antigos), com 28 anos de idade e o sorriso despassarado dos que não querem crescer, sei que há pessoas que morrem na mais completa solidão. Umas talvez mesmo ao meu lado sem que eu faça nada para as ajudar. Nestes anos todos aprendi a voltar a cara à miséria, à dor, à doença e à solidão. Não é comigo. Se não vir, não existe. Já não tenho 15 anos mas por vezes ajo como se os tivesse. Mas, agora, com a falsa inocência dos tolos.

1 comentários:

Pat disse...

"Era muito inocente. Mas achava que não! Que já era imensamente grande e que sabia tudo…" Passem os anos que passarem, há coisas que nunca mudam!... ;P